Hoje minha alma é aeronave pousada numa pista de cristal
Trago comigo uma árvore despida, porém, com frutos maduros
E uma mala vermelha cheia de astros sem roupa na mão direita
Quem me espera em Lima por detrás de rostos escondidos nas rochas?
Não tenho mais certezas depois do último tango dançado nas estrelas
Já não me basta a tua voz, se não saíres do lado de dentro da janela de vidro
E morderes a cicatriz do tempo com os doces punhais que tragas no peito
E me laves o pó seco do verão, a atravessar-me os pés, com os teus dedos
E ampares meu corpo trémulo de inverno a roçar nas folhas com a tua luz
E consigas vencer os dias em copos vazios na inutilidade da vida
Se não fores a cortina que eu rasgue em sonhos aturdidos em bocas de vulcões
E eu a bala perdida que fez nascer a rosa solar de horas desejadas
Em teu coração onde baixo a cabeça e faço meus rituais de amor sagrado
Eu não sei quem me estará esperando no aeroporto Lima ainda hoje
Se os teus temores, se as suas sombras não forem um jardim onde eu cresço!
Manuel Feliciano
5.07.2010
5.05.2010
Fim da linha
E agora
Como quem trás as mãos na algibeira
Chegamos ao fim deste lugar
Das oliveiras carregadas
Dos grãos de trigo para apanha
Das uvas inchadas de querer a boca
Consolamo-nos com a tristeza
Visitamos a alegria
Colhemo-nos num dia de chuva
Atravessamos os raios
Construimos a casa na areia
Fixamos os diplomas nas paredes
Num exagero enorme de termos sido
O regresso de qualquer caminho.
Percorremos todas as coisas
Buscamos todas as perfeições
Sem que nenhuma delas exista
Ao menos poderiamos ter dito
Como a voz de um rio ao entregar-se ao mar
Que mundo exterior não existe!
O sol é feito de um sorriso
Para não te matares no primeiro dia
A água vem da nascente da alegria
Dos vasos espirituais do sangue
Onde as estrelas conspiram
E que confluiem dentro de nós.
Na enxada pesada do primeiro beco escuro
Na primeira armadura sobre os ombros frágeis
Em todo o caso procuramo-nos
Porque só somos a certeza dos pedaços
A desinformidade da luta pessoal
A estrada e o muro e o retornar para dentro.
Queremos ser mais que a nuvem
Que a lagarta sobre a couve
Que o mar e as suas ondas
Que a chuva num dia de Inverno
Mas, mais do que isso não somos!
Porém, o que será lá em cima
Um jardim cheio de bancos?
Ou serás tu o jardim e a tua alma os bancos
Ou húmus flores e plantas
Em nome de todo o universo
Depois desse fim encontrado
Tal como o rio vence os rochedos
Azul, transparente e salgado
Finalmente a alma em paz […]
Por mim eu quero ser
Esse jardim onde posso deixar as mãos
A lágrima convertida em girassol
A voz limpida sem laminas
A terra debicada de pardais
Sem a pertença de um dono
Não escrevamos os nomes
Com medo que alguém os apague
Somos força criadora
Tomemos café à mesma hora!
Ama-te pode ser o primeiro passo
procura-te sem medo de nunca encontares!
Manuel Feliciano
Como quem trás as mãos na algibeira
Chegamos ao fim deste lugar
Das oliveiras carregadas
Dos grãos de trigo para apanha
Das uvas inchadas de querer a boca
Consolamo-nos com a tristeza
Visitamos a alegria
Colhemo-nos num dia de chuva
Atravessamos os raios
Construimos a casa na areia
Fixamos os diplomas nas paredes
Num exagero enorme de termos sido
O regresso de qualquer caminho.
Percorremos todas as coisas
Buscamos todas as perfeições
Sem que nenhuma delas exista
Ao menos poderiamos ter dito
Como a voz de um rio ao entregar-se ao mar
Que mundo exterior não existe!
O sol é feito de um sorriso
Para não te matares no primeiro dia
A água vem da nascente da alegria
Dos vasos espirituais do sangue
Onde as estrelas conspiram
E que confluiem dentro de nós.
Na enxada pesada do primeiro beco escuro
Na primeira armadura sobre os ombros frágeis
Em todo o caso procuramo-nos
Porque só somos a certeza dos pedaços
A desinformidade da luta pessoal
A estrada e o muro e o retornar para dentro.
Queremos ser mais que a nuvem
Que a lagarta sobre a couve
Que o mar e as suas ondas
Que a chuva num dia de Inverno
Mas, mais do que isso não somos!
Porém, o que será lá em cima
Um jardim cheio de bancos?
Ou serás tu o jardim e a tua alma os bancos
Ou húmus flores e plantas
Em nome de todo o universo
Depois desse fim encontrado
Tal como o rio vence os rochedos
Azul, transparente e salgado
Finalmente a alma em paz […]
Por mim eu quero ser
Esse jardim onde posso deixar as mãos
A lágrima convertida em girassol
A voz limpida sem laminas
A terra debicada de pardais
Sem a pertença de um dono
Não escrevamos os nomes
Com medo que alguém os apague
Somos força criadora
Tomemos café à mesma hora!
Ama-te pode ser o primeiro passo
procura-te sem medo de nunca encontares!
Manuel Feliciano
5.04.2010
5.03.2010
Lisboa
LISBOA
Em Lisboa as casas quebram o gelo verde dos jardins
Sinto o calor da pele por mais que o tempo arrefeça
Crescendo numa maçã de ouro que lava todos os navios
Os caminhos tortuosos têm como regresso o teu rosto
Inacessivel às sombras que os teus cabelos destroem
A noite vestida de branco foi onde deixamos o peito
Como crianças gritando a pedra pesada e madura
Com que nos carregaram o mundo num colar feito de amor
A vertigem e o cansaço do tempo voltado para o nada
Secreto na voz de Alfama com seu colo iluminado
Partimos em nossos beijos como barcos a meia luz
Por postigos e sardinheiras com que se maruja no Tejo
Seguimos viagem nos sonhos entre crepúsculos e mãos
perdemo-nos entre névoas ao som dos carris das colinas
Em estações sem bilhetes e áreas circundas a turistas
Partiriamos em astros não fosse o sermos só Brisa!
Que o verão desmancha nas flores, que a primavera não deixa!
Manuel Feliciano
Em Lisboa as casas quebram o gelo verde dos jardins
Sinto o calor da pele por mais que o tempo arrefeça
Crescendo numa maçã de ouro que lava todos os navios
Os caminhos tortuosos têm como regresso o teu rosto
Inacessivel às sombras que os teus cabelos destroem
A noite vestida de branco foi onde deixamos o peito
Como crianças gritando a pedra pesada e madura
Com que nos carregaram o mundo num colar feito de amor
A vertigem e o cansaço do tempo voltado para o nada
Secreto na voz de Alfama com seu colo iluminado
Partimos em nossos beijos como barcos a meia luz
Por postigos e sardinheiras com que se maruja no Tejo
Seguimos viagem nos sonhos entre crepúsculos e mãos
perdemo-nos entre névoas ao som dos carris das colinas
Em estações sem bilhetes e áreas circundas a turistas
Partiriamos em astros não fosse o sermos só Brisa!
Que o verão desmancha nas flores, que a primavera não deixa!
Manuel Feliciano
5.02.2010
A existência deturpa todos os caminhos
Meu amor, no dia em que te quis dar as mãos
Estava enredado na mentira que é o mundo
Eu amadureci nos ramos de numa árvore de pedra
Tive que crescer e ser fruto e comer-me a mim mesmo
Da vontade e desejo só vi a praia onde outros se sentaram
Permiti-me então que fosse terra e me cultivassem
Ao primeiro dia queimaram-me todos os arbustos secos
Ao segundo dia cavaram-me para arejar todo o meu corpo
Em lua apropriada colocaram-me todas as sementes
Até hoje espero sobre armaduras de ferro que elas nasçam
Sou completamente alheio a fenómenos exteriores
Devo dizer que, quando o sol se põe ao fundo das melancias
Entre o rubor do ventre e das sementes húmidas de Agosto
As línguas e as bocas estão mais alegres que a minha alma
A alegria é a ponte sem pilares que ilusoriamente atravessamos
Não me peçam para subir as escadarias pela melanina dos sonhos
Que pinte com alegria e amor palavras sem lugares generosos!
Se as tuas mãos fintassem de uma vez por todas esta mentira
Eu pelo menos dormiria pensando que a morte é o que menos pesa!
Manuel Feliciano
Estava enredado na mentira que é o mundo
Eu amadureci nos ramos de numa árvore de pedra
Tive que crescer e ser fruto e comer-me a mim mesmo
Da vontade e desejo só vi a praia onde outros se sentaram
Permiti-me então que fosse terra e me cultivassem
Ao primeiro dia queimaram-me todos os arbustos secos
Ao segundo dia cavaram-me para arejar todo o meu corpo
Em lua apropriada colocaram-me todas as sementes
Até hoje espero sobre armaduras de ferro que elas nasçam
Sou completamente alheio a fenómenos exteriores
Devo dizer que, quando o sol se põe ao fundo das melancias
Entre o rubor do ventre e das sementes húmidas de Agosto
As línguas e as bocas estão mais alegres que a minha alma
A alegria é a ponte sem pilares que ilusoriamente atravessamos
Não me peçam para subir as escadarias pela melanina dos sonhos
Que pinte com alegria e amor palavras sem lugares generosos!
Se as tuas mãos fintassem de uma vez por todas esta mentira
Eu pelo menos dormiria pensando que a morte é o que menos pesa!
Manuel Feliciano
4.25.2010
As minhas únicas viagens
As únicas viagens
Eu amei só as viagens que não fiz
Suspostamente viagens alucianadas
Também Medicamente proibidas
Sem horas a fio no check in
E malas penduradas sobre a bússola
Com data pressuposta de regresso
Aquelas em que eu viajei de facto
Em que parti sem nenhum destino
Nas quais eu pude mudar todas as rotas
Aquelas em que nunca me esperaram
Nas quais tão pouco me despedi!
Manuel Feliciano
Eu amei só as viagens que não fiz
Suspostamente viagens alucianadas
Também Medicamente proibidas
Sem horas a fio no check in
E malas penduradas sobre a bússola
Com data pressuposta de regresso
Aquelas em que eu viajei de facto
Em que parti sem nenhum destino
Nas quais eu pude mudar todas as rotas
Aquelas em que nunca me esperaram
Nas quais tão pouco me despedi!
Manuel Feliciano
Deus é de facto
Deus é um facto
O rio traz no corpo as mãos divinas de Deus
A insuficiência dos homens transborda todo o seu leito
A fronteira é a ponte do lugar para todas as coisas
E todas as coisas vivem fora da compreensão
E a incompreensão é a casa sagrada de Deus
Conhecem alguma coisa que exista fora de uma casa?
Um filho que nasceu sem pai ou uma erva sem semente
Os pássaros para a água ou os peixes para o céu?
Porém, a humanidade é um cão como qualquer outro cão
O homem faz as armas e o cão lambe as feridas
Cada ser é húmus da história do seu próprio mundo
A pequenez resulta da vontade em ser-se grande.
Manuel Feliciano
O rio traz no corpo as mãos divinas de Deus
A insuficiência dos homens transborda todo o seu leito
A fronteira é a ponte do lugar para todas as coisas
E todas as coisas vivem fora da compreensão
E a incompreensão é a casa sagrada de Deus
Conhecem alguma coisa que exista fora de uma casa?
Um filho que nasceu sem pai ou uma erva sem semente
Os pássaros para a água ou os peixes para o céu?
Porém, a humanidade é um cão como qualquer outro cão
O homem faz as armas e o cão lambe as feridas
Cada ser é húmus da história do seu próprio mundo
A pequenez resulta da vontade em ser-se grande.
Manuel Feliciano
4.23.2010
Quem me dera ter alma
Quem me dera ter alma
Sem horas translúcidas
Da paciência das pedras
Ao longo da estrada
Indiferentes ao mundo
Consciência sem filhos
Corroídas pelo medo
De seres inexistentes
Calcinados em lares
Sem ânsia e metafisica
Da lonjura das nuvens
Alheias a si mesmas
Sem reclusos por dentro
Gritando entre as grades!
Manuel Feliciano
Sem horas translúcidas
Da paciência das pedras
Ao longo da estrada
Indiferentes ao mundo
Consciência sem filhos
Corroídas pelo medo
De seres inexistentes
Calcinados em lares
Sem ânsia e metafisica
Da lonjura das nuvens
Alheias a si mesmas
Sem reclusos por dentro
Gritando entre as grades!
Manuel Feliciano
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