Quem me quiser visitar estou por cima da campa
Por baixo estão aqueles vivos, mas que nunca nasceram
Não me tragam camélias e flores das mais bonitas
Deixam-nas viver também no seu sagrado tempo
Tragam-me champagne e bebamos à eternidade da vida
Cometi os meus pecados porque há dias que a carne chora
Em que te pedem o corpo e só levas a alma nas mãos
E outros em que te pedem a alma e afinal só tens o corpo
Mas não me arrependi de não ter construido casas
De não ter um cargo de chefia num business center
Isso ficou para os homens daqueles de faz de conta
Amei- fodi - e errei, mas não embandeirei em arco
Há dias em que a sede é tanta que bebemos água com lodo
Não fui mais do que nada e para o nada voltei
De que me valia a casa - mulher - ser pai com os meus filhos
Quantos casas eu não tive e quantas mulheres não amei?
As mulheres que mais amei foram as que me abandonaram
E as que mais me amaram ainda hoje esperam por mim
E só me doeram na alma porque amar é ser escravo!
Tudo aquilo que nunca tive acho que nunca me faltou...
O meu coração é leve, mas só me aleija quem eu quero
Deixei de chorar por não ter, porque afinal quem é que tem?
manuel feliciano
8.10.2010
8.09.2010
Apontamento
Gostaria de dizer que a minha poesia é arte e, que qualquer coincidência com a minha biografia, ou com os meus valores, é mera ficção ou não, pois a minha escrita visa meramente fazer pensar, mas fazê-lo em profundidade, algo que hoje quase ninguém faz, e além disso chocar essas carinhas de pau, que coram mas só da barriga para baixo, mas que na medida em que a criação se dá, nada de plágios sou eu o autor, mas tudo o que digo passa a ter vida própria.
Manuel Feliciano
Manuel Feliciano
Só sou um fantasma
horas a fio à espera do barco
passeei-me por Lisboa
sentei-me por jardins
vi mulheres esguias
daquelas que são de barro
outras em bancos de pernas cruzadas
homens que trocam uma hora por um dia
e ratos de esgoto com fraque e gravata
uns pediam esmola nas esquinas da vida
e alguns desejaram que o dia não nascesse
e na hora de entrar no cais da saudade
homens choravam com lágrimas de medo
como quem vai para o degredo
e eu sorrindo no cais para voltar para o útero
estavamos todos ali
debaixo do mesmo tecto
olhei para os telhados de casas e carros
afinal para quê se eram feitos de neve
nem sequer me viram
eu era só nevoeiro
não houve sequer quem me pedisse bilhete
para Manzanillo Terminal no Panama que é tão longe
que afinal é tão perto e fica a um supiro de nada.
manuel feliciano
passeei-me por Lisboa
sentei-me por jardins
vi mulheres esguias
daquelas que são de barro
outras em bancos de pernas cruzadas
homens que trocam uma hora por um dia
e ratos de esgoto com fraque e gravata
uns pediam esmola nas esquinas da vida
e alguns desejaram que o dia não nascesse
e na hora de entrar no cais da saudade
homens choravam com lágrimas de medo
como quem vai para o degredo
e eu sorrindo no cais para voltar para o útero
estavamos todos ali
debaixo do mesmo tecto
olhei para os telhados de casas e carros
afinal para quê se eram feitos de neve
nem sequer me viram
eu era só nevoeiro
não houve sequer quem me pedisse bilhete
para Manzanillo Terminal no Panama que é tão longe
que afinal é tão perto e fica a um supiro de nada.
manuel feliciano
8.08.2010
Vamos celebrar o dia enquanto está sol
Vamos celebrar o dia enquanto está sol
canta com os dedos o milagre da vida
e bebamos com gosto esta bebedeira de sonhos
o quanto é sagrado a abelha beijando a flor
e o passarinho fazendo o ninho na laranjeira
só pode ser dos anjos essa sagrada eucaristia
tenhos os pés gelados mas o prazer da vida
é mais forte que a dor que sangra na Primavera
vamos antes que o crude no Novo México turbe as águas
E da escuridão que dura se tenha que fazer dia
mas muito mais que isso demos que é essa a única casa
Que o pó nem no verão mais seco a alma pode inundar
os nossos olhos nunca percam a visão
e o coração não seja uma estrela perdida
e nosso amor não morra antes que Deus nos leve desta vida
Nós somos um tudo que é feito de nada
mas que ao ser tudo ao nada já não volta
meu amor esquece o mundo que até a tempestade não é um acaso
é para que não duvidemos que as lágrimas são escutadas
e do outro lado não tenhamos que chorar eternamente.
manuel feliciano
canta com os dedos o milagre da vida
e bebamos com gosto esta bebedeira de sonhos
o quanto é sagrado a abelha beijando a flor
e o passarinho fazendo o ninho na laranjeira
só pode ser dos anjos essa sagrada eucaristia
tenhos os pés gelados mas o prazer da vida
é mais forte que a dor que sangra na Primavera
vamos antes que o crude no Novo México turbe as águas
E da escuridão que dura se tenha que fazer dia
mas muito mais que isso demos que é essa a única casa
Que o pó nem no verão mais seco a alma pode inundar
os nossos olhos nunca percam a visão
e o coração não seja uma estrela perdida
e nosso amor não morra antes que Deus nos leve desta vida
Nós somos um tudo que é feito de nada
mas que ao ser tudo ao nada já não volta
meu amor esquece o mundo que até a tempestade não é um acaso
é para que não duvidemos que as lágrimas são escutadas
e do outro lado não tenhamos que chorar eternamente.
manuel feliciano
8.07.2010
Quem me deu este lugar
Quem me deu este lugar
que eu não reconheço as casas
feitas de madeira e caruncho
quem me deu a maçã de adão
que estava podre por dentro
quem me disse navega pelo monte
num barco de calhaus de pedra
quem me apresentou o Job
e me deu vinagre por vinho
quem foi o judas que me traiu
quem me pregou num madeiro
tornou meu corpo num degelo
quem me deu uma mulher
burguesa de luvas brancas
que afinal é a espondilite
mas que ama com ternura
mas não está à minha altura
é uma bela cafetina
quem rasgou a minha agenda
quem me cuspiu no amor
quem é que inventou a liberdade?
quem me desfeitiou o Eu
quem me prendeu mesmo sem cordas
e me trocou todas as voltas?
já não tenho sim nem não
já ninguém me acredita
deixa-me me ir envenenar
no jardim da minha infância
há fome e sapatos rotos
mas isso é uma alegria
e flores a brotar nas lágrimas
olha um campo de flores em frente
prados verdes e passarinhos
corro atrás de borboletas
voo sem corpo e sem alcance
bebo o azul do céu em sumo
mil anjos falam comigo
a morte nunca existiu
vai-se para casinhas no céu
que fizeram aos meus olhos
que hoje quase não vêem.
manuel feliciano
que eu não reconheço as casas
feitas de madeira e caruncho
quem me deu a maçã de adão
que estava podre por dentro
quem me disse navega pelo monte
num barco de calhaus de pedra
quem me apresentou o Job
e me deu vinagre por vinho
quem foi o judas que me traiu
quem me pregou num madeiro
tornou meu corpo num degelo
quem me deu uma mulher
burguesa de luvas brancas
que afinal é a espondilite
mas que ama com ternura
mas não está à minha altura
é uma bela cafetina
quem rasgou a minha agenda
quem me cuspiu no amor
quem é que inventou a liberdade?
quem me desfeitiou o Eu
quem me prendeu mesmo sem cordas
e me trocou todas as voltas?
já não tenho sim nem não
já ninguém me acredita
deixa-me me ir envenenar
no jardim da minha infância
há fome e sapatos rotos
mas isso é uma alegria
e flores a brotar nas lágrimas
olha um campo de flores em frente
prados verdes e passarinhos
corro atrás de borboletas
voo sem corpo e sem alcance
bebo o azul do céu em sumo
mil anjos falam comigo
a morte nunca existiu
vai-se para casinhas no céu
que fizeram aos meus olhos
que hoje quase não vêem.
manuel feliciano
8.06.2010
Hielo
Hielo
¿Serán los bloques de hielo
De glaciares que se van deshaciendo
Los que conservan las brasas
De amores que ya se apagaron?
¿Serán los hielos duros y fríos
que forman iglús de amores secretos
los que dejan arder el deseo
y derriten el placer de los anhelos?
¿Será el deshielo de los hombres
quien inunde a la condenada Venecia
y en las aguas crecidas se vislumbren
ahogadas, perdidas, solas y malditas,
las brasas?
Publicado por Olga Delgado en 21:43
¿Serán los bloques de hielo
De glaciares que se van deshaciendo
Los que conservan las brasas
De amores que ya se apagaron?
¿Serán los hielos duros y fríos
que forman iglús de amores secretos
los que dejan arder el deseo
y derriten el placer de los anhelos?
¿Será el deshielo de los hombres
quien inunde a la condenada Venecia
y en las aguas crecidas se vislumbren
ahogadas, perdidas, solas y malditas,
las brasas?
Publicado por Olga Delgado en 21:43
Una mañana sin vuelos
Una mañana sin vuelos
El frío empezó por el estómago,
En una mañana sin vuelos.
La culpa, la tuvo un volcán.
Era un buen cartógrafo
Limitando el alcance de los celos
Pero nunca fue un buen capitán.
En la sala de espera sin horas
Resuena en mi mente la misma pregunta
¿Quién decidió mis sueños?
¿Quién mató las pasiones?
¿Quién puso en hora los deseos?
¿Son los dueños de la pasión difunta
Los mismos que me inyectaron
Un amor con convulsiones?
Nunca supe donde está el presente
Ni sabré encontrar el futuro.
Por megafonía anuncian incertidumbre.
Espero en la quietud reciente
Del movimiento imprevisto,
Luchando por no rebelarme ni pensar,
Ajena a la insoportable responsabilidad
De elegir el momento más apropiado
Para gastar los minutos.
Yo también dejé,
En una tarde de abril,
de usar reloj.
Algún día también,
Dejaré de esperar.
Publicado por Olga Delgado
Que belo poema: manuel feliciano
El frío empezó por el estómago,
En una mañana sin vuelos.
La culpa, la tuvo un volcán.
Era un buen cartógrafo
Limitando el alcance de los celos
Pero nunca fue un buen capitán.
En la sala de espera sin horas
Resuena en mi mente la misma pregunta
¿Quién decidió mis sueños?
¿Quién mató las pasiones?
¿Quién puso en hora los deseos?
¿Son los dueños de la pasión difunta
Los mismos que me inyectaron
Un amor con convulsiones?
Nunca supe donde está el presente
Ni sabré encontrar el futuro.
Por megafonía anuncian incertidumbre.
Espero en la quietud reciente
Del movimiento imprevisto,
Luchando por no rebelarme ni pensar,
Ajena a la insoportable responsabilidad
De elegir el momento más apropiado
Para gastar los minutos.
Yo también dejé,
En una tarde de abril,
de usar reloj.
Algún día también,
Dejaré de esperar.
Publicado por Olga Delgado
Que belo poema: manuel feliciano
Nunca te perdi
Se a vida secou os ramos onde pousamos
Se o sol queimou as flores que eu te dei
Se a vida nas suas voltas nos trocou o fado
E a noite sem estrelas foi somente o que nos deu
Olha que o tanto que ainda não te dei é póstumo
há-de renascer por entre os jardins dos céus
Porque eu dei tudo e cantei nas asas de condores
Se a chuva destroçou a casa da minha alma
Eu não virei areia e fui muito mais que um anjo
Eu não culpei os deuses e caminhei sem pernas
Agora o teu sorriso abre-se na minha boca
Semeia árvores e rios na escurdidão sem lume
Que os dedos das tuas mãos da noite me abrigaram
agora sou barco de brisa no azul das tuas veias
E o pó com que os deuses criaram este cosmus
E a sede lamentando nos gomos em sangue na tua boca
Sou o princípio sem fim e criança dormindo no teu colo
Que aguarda o teu seio como a terra o sol na manhã
Somos mais que irmãos e imortais sem o fim no horizonte
Tecido da tua alma e a origem da força transcendente
Amor eu estou com fome e vou colher frutos nos teus cabelos
Descansemos em paz que não há lonjura que me pertube
Se só somos um todo que há tantos anos os deuses criaram
Não choremos como loucos tu és-me a parte que não tenho!
manuel feliciano
Se o sol queimou as flores que eu te dei
Se a vida nas suas voltas nos trocou o fado
E a noite sem estrelas foi somente o que nos deu
Olha que o tanto que ainda não te dei é póstumo
há-de renascer por entre os jardins dos céus
Porque eu dei tudo e cantei nas asas de condores
Se a chuva destroçou a casa da minha alma
Eu não virei areia e fui muito mais que um anjo
Eu não culpei os deuses e caminhei sem pernas
Agora o teu sorriso abre-se na minha boca
Semeia árvores e rios na escurdidão sem lume
Que os dedos das tuas mãos da noite me abrigaram
agora sou barco de brisa no azul das tuas veias
E o pó com que os deuses criaram este cosmus
E a sede lamentando nos gomos em sangue na tua boca
Sou o princípio sem fim e criança dormindo no teu colo
Que aguarda o teu seio como a terra o sol na manhã
Somos mais que irmãos e imortais sem o fim no horizonte
Tecido da tua alma e a origem da força transcendente
Amor eu estou com fome e vou colher frutos nos teus cabelos
Descansemos em paz que não há lonjura que me pertube
Se só somos um todo que há tantos anos os deuses criaram
Não choremos como loucos tu és-me a parte que não tenho!
manuel feliciano
El Tajo es ahora todo mío
El Tajo es ahora todo mío
El Tajo es ahora todo mío
En la desembocadura.
Desde las pequeñas olas
Que se forman frente a Dafundo
Hasta el otro lado del río.
Molestará a algunos
Otros quedarán indiferentes
No importa la gente
No importa el mundo
El Tajo es ahora todo mío
En la desembocadura.
En la mañana oscura
De niebla, calima y pies fríos,
Controlo el tráfico fluvial
De barcos en los que no navego.
Ayer casi lloré
Al sobrevolar la marginal
Bañada de fuego.
El estómago me preguntó
Si el avión
No se habría equivocado
De destino.
Mis padres no eran catalanes
Y eso no me impidió
Que yo lo fuera.
Mientras a otros les retuerce
El dolor y la injusticia,
Yo no puedo quejarme,
Yo lo tengo todo,
Hasta el Tajo es mío ahora
En la desembocadura.
Lo tengo todo,
Todo menos mi tierra,
Todo menos mi gente,
Todo menos un camino
Que me convenza
Para seguir,
Seguir enfrente.
Publicado por Olga Delgado en 17:33
Da minha amiga poetisa de Barcelona em terras portuguesas Olga Delgado, és grande, amo a tua escrita, um dia serás do mundo.
El Tajo es ahora todo mío
En la desembocadura.
Desde las pequeñas olas
Que se forman frente a Dafundo
Hasta el otro lado del río.
Molestará a algunos
Otros quedarán indiferentes
No importa la gente
No importa el mundo
El Tajo es ahora todo mío
En la desembocadura.
En la mañana oscura
De niebla, calima y pies fríos,
Controlo el tráfico fluvial
De barcos en los que no navego.
Ayer casi lloré
Al sobrevolar la marginal
Bañada de fuego.
El estómago me preguntó
Si el avión
No se habría equivocado
De destino.
Mis padres no eran catalanes
Y eso no me impidió
Que yo lo fuera.
Mientras a otros les retuerce
El dolor y la injusticia,
Yo no puedo quejarme,
Yo lo tengo todo,
Hasta el Tajo es mío ahora
En la desembocadura.
Lo tengo todo,
Todo menos mi tierra,
Todo menos mi gente,
Todo menos un camino
Que me convenza
Para seguir,
Seguir enfrente.
Publicado por Olga Delgado en 17:33
Da minha amiga poetisa de Barcelona em terras portuguesas Olga Delgado, és grande, amo a tua escrita, um dia serás do mundo.
Uma unha do meu mundo
Escrevo poesia compulsivamente quando estou com uma boa vibração de energia,adoro os poetas e escritores de Portugal e do mundo, fico feliz que me leiam e me elogiem, afinal escrevo para me dar em pão e sol ao mundo, a ti que me lês, não me envaideço, às vezes tenho que ter a excentricidade suficiente para sobrevoar o fogo...há melgas que querem derrubar cavalos, mas eu abro-lhes os braços, e elas passam ao lado, vai-te embora ó melga!!!
manuel feliciano
manuel feliciano
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