A minha vida
A minha vida
É um filho da puta
De um cadáver vivo
Latejando
Numa fonte seca
Cheio de água viva
Com santinhos de barro.
Com sete caminhos
Com sete promessas
Com setes destinos
Com sete dias da semana.
Abraços sem braços
Beijos sem bocas
Estradas sem setas
Amores sangrando
A 365 dias por hora
Caminhadas sem pernas.
Cheio de brumas
Tão pútridas as brumas
Que deixam ver tudo
Como os faróis de um carro.
Glória aos piratas
Glória aos ladrões
Glória aos proxenetas
Heróis sobreviventes.
Foda-se os cânceres
Foda-se a fome
As injecções letais
As falsas promessas
Os cornos do diabo
Que criou esta merda
Onde jorra tudo
Onde se vive tudo
Onde se ama tudo
Onde se perde tudo.
Vazios ou cheios
Os bolsos das calças
Nunca se tem nada
Nem uma mão no vazio
Para silenciar o tédio.
Foda-se os hospitas
Os lares de idosos
Os cometas sem rastos
Os prados sem erva
As guerras despropositadas.
Glória ao Sadomasoquismo
Às agulhas nos mamilos
Às mordaças na boca
Aos pingos de cera
Na cabeça da piça
Aos ratos da inteligência
O mundo que eu não escolhi
E a que fui obrigado.
E que ao menos eu tenha
Um Deus de vento
No final de tudo
Para me perdoar
Também os pecados
Que não inventei[...]
Tive o azar de nascer
Com carne e sexo.
manuel feliciano
9.18.2010
9.17.2010
Viagem
Vou por um navio de letras
Os bancos são bocas exangues
Os passageiros reticências
O destino não tem hora.
Abraços desencontrados
Como quem os aperta
Num mar imenso de pó
No umbral de uma casa
Sem porta que dê para fora.
Ouço a música dos pêssegos
Que nunca tocaram a quilha
Do concavo da boca
E souberam-me ao além
Pela bruma tão clara
Rezo de joelhos a uma pedra.
Não me queixo, para quê?
Atraco-me aos pés de uma figueira
A mesma que judas conhece
E faço dela uma prece
O Deus que tanto esperei
No cantinho dos teus olhos.
Enquanto o mundo for
O nada é multidões de gente
E eu sou um mero lastro
Fatias de uma melancia
Nas bocas de quem tem fome.
Eu sigo pelo mar de pedra
Eu sei lá o que é o mar?
Sou ponto de interrogação
Pinheiro plantado no monte
Enquanto a viagem segue
Pelo teu corpo sem promessas.
manuel feliciano
Os bancos são bocas exangues
Os passageiros reticências
O destino não tem hora.
Abraços desencontrados
Como quem os aperta
Num mar imenso de pó
No umbral de uma casa
Sem porta que dê para fora.
Ouço a música dos pêssegos
Que nunca tocaram a quilha
Do concavo da boca
E souberam-me ao além
Pela bruma tão clara
Rezo de joelhos a uma pedra.
Não me queixo, para quê?
Atraco-me aos pés de uma figueira
A mesma que judas conhece
E faço dela uma prece
O Deus que tanto esperei
No cantinho dos teus olhos.
Enquanto o mundo for
O nada é multidões de gente
E eu sou um mero lastro
Fatias de uma melancia
Nas bocas de quem tem fome.
Eu sigo pelo mar de pedra
Eu sei lá o que é o mar?
Sou ponto de interrogação
Pinheiro plantado no monte
Enquanto a viagem segue
Pelo teu corpo sem promessas.
manuel feliciano
9.15.2010
Mundo às avessas
O rio queima-me
o sol molha-me
A lua deixa-me às escuras
As estrelas são barcos
No marulhar das pedras.
Os lençóis espairecem-se
Em nuvens
Gotas que se lambem
Os corpos flutuam
Na imprecisão do mundo
Com caras disfuguradas.
O azul é um trabalhador
Suado numa fábrica
Viver é uma fila de trânsiito
Lento sem retorno
Na alegria da busca
Com sorrisos de condenados
Dos lábios mordendo-se em pó
Irmãos dos cometas e dos astros.
Células em actividade
Refrescam-se em metamorfose
Ergo-me das brasas
Como uma flor de chuva
Cabe-me ser chão
Pedra em palavras
Que pouco ou nada dizem.
Escuto os sons de dentro
Desincorporo-me em vento
Inflamo as sombras
Entro por janelas
Fechadas
Sempre abertas.
Com corpo
Já não corpo
Sou tornado de amor
Imune a passos de enxofre
No fosfato da infância.
Por jardins que ardem gelados
Coxas frescas no basalto
Fora de órbita terrena
Baldio cheio de pássaros
Os anjos silentes pousam-me.
manuel feliciano
o sol molha-me
A lua deixa-me às escuras
As estrelas são barcos
No marulhar das pedras.
Os lençóis espairecem-se
Em nuvens
Gotas que se lambem
Os corpos flutuam
Na imprecisão do mundo
Com caras disfuguradas.
O azul é um trabalhador
Suado numa fábrica
Viver é uma fila de trânsiito
Lento sem retorno
Na alegria da busca
Com sorrisos de condenados
Dos lábios mordendo-se em pó
Irmãos dos cometas e dos astros.
Células em actividade
Refrescam-se em metamorfose
Ergo-me das brasas
Como uma flor de chuva
Cabe-me ser chão
Pedra em palavras
Que pouco ou nada dizem.
Escuto os sons de dentro
Desincorporo-me em vento
Inflamo as sombras
Entro por janelas
Fechadas
Sempre abertas.
Com corpo
Já não corpo
Sou tornado de amor
Imune a passos de enxofre
No fosfato da infância.
Por jardins que ardem gelados
Coxas frescas no basalto
Fora de órbita terrena
Baldio cheio de pássaros
Os anjos silentes pousam-me.
manuel feliciano
Probabilidades
Os sonhos são tão reais
Como a probabilidade de Eu ter nascido
E toda a natureza que me rodeia
Sou a consciência
Trágica de um sonho
Maravilhoso
De mel
De abelhas
Raízes chupando a ardósia
Numa rua voltada p'ra areia
Com uma mulher de costas ao fundo
E em navios de névoas
Pelo Porto da memória
Sigo naturalmente em frente
Por ondas em ruínas
Branquinhas e salgadas
Que sabem a um todo sempre
Pelo Oceano Atlântico
A caminho das américas
Como quem vem de regresso
E só está na janela a fitar o navio
Com as mãos quentes
E os pés em gelo
À espera de um porto com os braços abertos
Deixa que te ofereça um ramo de rosas
Quando te secarem
Podes jogá-las fora
Eu serei um barco entre os teus sentidos
Âncora de saliva dentro da tua boca
Não gosto de portos sem atracagem
Palavras de fogo sem luminescência
Podes-me pisar que eu só o pó da terra.
manuel feliciano
Como a probabilidade de Eu ter nascido
E toda a natureza que me rodeia
Sou a consciência
Trágica de um sonho
Maravilhoso
De mel
De abelhas
Raízes chupando a ardósia
Numa rua voltada p'ra areia
Com uma mulher de costas ao fundo
E em navios de névoas
Pelo Porto da memória
Sigo naturalmente em frente
Por ondas em ruínas
Branquinhas e salgadas
Que sabem a um todo sempre
Pelo Oceano Atlântico
A caminho das américas
Como quem vem de regresso
E só está na janela a fitar o navio
Com as mãos quentes
E os pés em gelo
À espera de um porto com os braços abertos
Deixa que te ofereça um ramo de rosas
Quando te secarem
Podes jogá-las fora
Eu serei um barco entre os teus sentidos
Âncora de saliva dentro da tua boca
Não gosto de portos sem atracagem
Palavras de fogo sem luminescência
Podes-me pisar que eu só o pó da terra.
manuel feliciano
9.12.2010
Depravações em Lisboa
Quem nunca amou uma mulher em Lisboa
Corpo repousado e alma toda de fora
Com cartas de amor escritas nos lábios
E nos olhos duas rolas pousadas em mim
No cio do cheiro das flores de jardins
Quando demos conta estavamos abraçados
E o rio Tejo incendiou-nos em gemidos
Até os desejos ficarem todos em cinzas
Mas aquelas que entraram em autocarros
Musas do além com formas transparentes
Apesar de tudo tomei-as de mãos dadas
Agarrei no corpo e joguei-o aos pobres
E recriei-me todo no mar das suas coxas
Ficamos a só os dois sobre areias brancas
Seus braços eram cobras atadas ao pescoço
Cuspi-lhe o veneno e as rochas chamaram-nos
E os passageiros parece que não viram nada
Eu num passeio somente a olhar os vidros
Daquele autocarro que nem sequer passou.
manuel feliciano
Corpo repousado e alma toda de fora
Com cartas de amor escritas nos lábios
E nos olhos duas rolas pousadas em mim
No cio do cheiro das flores de jardins
Quando demos conta estavamos abraçados
E o rio Tejo incendiou-nos em gemidos
Até os desejos ficarem todos em cinzas
Mas aquelas que entraram em autocarros
Musas do além com formas transparentes
Apesar de tudo tomei-as de mãos dadas
Agarrei no corpo e joguei-o aos pobres
E recriei-me todo no mar das suas coxas
Ficamos a só os dois sobre areias brancas
Seus braços eram cobras atadas ao pescoço
Cuspi-lhe o veneno e as rochas chamaram-nos
E os passageiros parece que não viram nada
Eu num passeio somente a olhar os vidros
Daquele autocarro que nem sequer passou.
manuel feliciano
9.11.2010
Em Camaná
Só quem conhece as praias de Camaná
Na costas do Pacífico por detrás de mim
A âncora do meu ser no mar profundo
No mosto das uvas maduras do Douro
Minha alma galga nas água desobediente
O meu coração lateja como bailarina
Quando eu navego pela parra gritando
Até me entregar ao mar azul do Porto
Em sangue e fogo verde agarrado ao céu
Rasgo a tela e a tinta dos pintores
Que prenderam os desejos de dois amantes
Quero descongelar o Sol que tarda
Quero parir as emoções onde não arda
Os teus lábios com dor à espera dos meus
Dobrar o cabo do homem em metamorfose
Morder a carne aos caracteres de káfka
Ser chuva mansa em pássaros a teus pés
Vou abraçá-los no açucarado das vagas
Vou afogar-me em ti para nascer de novo
Só quem conhece as praias de Camaná
Sabe que eu vou rasgar a placenta no breu
E ser-te amor e sangue numa estrela na voz.
manuel feliciano
Na costas do Pacífico por detrás de mim
A âncora do meu ser no mar profundo
No mosto das uvas maduras do Douro
Minha alma galga nas água desobediente
O meu coração lateja como bailarina
Quando eu navego pela parra gritando
Até me entregar ao mar azul do Porto
Em sangue e fogo verde agarrado ao céu
Rasgo a tela e a tinta dos pintores
Que prenderam os desejos de dois amantes
Quero descongelar o Sol que tarda
Quero parir as emoções onde não arda
Os teus lábios com dor à espera dos meus
Dobrar o cabo do homem em metamorfose
Morder a carne aos caracteres de káfka
Ser chuva mansa em pássaros a teus pés
Vou abraçá-los no açucarado das vagas
Vou afogar-me em ti para nascer de novo
Só quem conhece as praias de Camaná
Sabe que eu vou rasgar a placenta no breu
E ser-te amor e sangue numa estrela na voz.
manuel feliciano
Rio Paraná
Mayara Brota cheiro a Brasil
Néctar da poeira do cosmos
Araucária do Paraná
Figura de mulher árabe
Olhos que voam e não se desprendem
Quis ser seu pirata sem barco
Em seus olhos mundo além
Refulgem estrelas transcendentes.
Água de fogo corre-lhe no colo
Dança do ventre nas ancas do rio
Que me desagua no cavalo sem freio
No mar salgado dos lábios rosados
Muito mais que o ouro roubado
Sou só a cinza desses teus beijos
Nas rosas - mamilos rola pousada.
É a Mayara. É a Mayara
Planícies, planaltos, serra e mar
Percorrendo-me todos os sentidos
Saliva quente a refrescar
Sinto-me raiz do teu milho
E a cana-de-açúcar em crescença
Na ponta da língua a verdejar
O sol esconde-se-te por detrás das costas
Melancia fresca no sabor das nádegas.
Sou névoa quente perdido
Na taça da tua Saliva
Entornada pelo meu corpo
Por esta velha Europa
Sou tua sombra ainda tão viva
Que me se há-de dar-te em laranjas
Em gomos trincados nos dentes
És-me arara quente de mel
Em árvore despida e folhas molhadas
murmurando num gozo de chuva
Até que teu grito azul me vença
E eu me venha numa flor de esperma
Por entre a foz do rio Paraná.
Poeta Manuel Feliciano
Dedicado à minha amiga Mayara Shelson
Néctar da poeira do cosmos
Araucária do Paraná
Figura de mulher árabe
Olhos que voam e não se desprendem
Quis ser seu pirata sem barco
Em seus olhos mundo além
Refulgem estrelas transcendentes.
Água de fogo corre-lhe no colo
Dança do ventre nas ancas do rio
Que me desagua no cavalo sem freio
No mar salgado dos lábios rosados
Muito mais que o ouro roubado
Sou só a cinza desses teus beijos
Nas rosas - mamilos rola pousada.
É a Mayara. É a Mayara
Planícies, planaltos, serra e mar
Percorrendo-me todos os sentidos
Saliva quente a refrescar
Sinto-me raiz do teu milho
E a cana-de-açúcar em crescença
Na ponta da língua a verdejar
O sol esconde-se-te por detrás das costas
Melancia fresca no sabor das nádegas.
Sou névoa quente perdido
Na taça da tua Saliva
Entornada pelo meu corpo
Por esta velha Europa
Sou tua sombra ainda tão viva
Que me se há-de dar-te em laranjas
Em gomos trincados nos dentes
És-me arara quente de mel
Em árvore despida e folhas molhadas
murmurando num gozo de chuva
Até que teu grito azul me vença
E eu me venha numa flor de esperma
Por entre a foz do rio Paraná.
Poeta Manuel Feliciano
Dedicado à minha amiga Mayara Shelson
9.10.2010
Eu li uma catalã
Depois que li uma jovem catalã
De Barcelona e do mundo
Oferecendo os seus cabelos ao Tejo
Como rastos de navios
Na desembocadura da Cruz Quebrada
Ex-Oficial da marinha
Acordei da letargia
Pensei que não havia mar como dantes
Daqueles que deixam lágrimas nas costas
E onde podemos apanhar figos
Ao comando de uma ilusão
Talhada em ferro e madeira
Feito de memória e de vida
Em que o azul eram os abraços
Em que esquecemos todos os perigos
Em biqueiras de sapatos
O mar ficou menos salgado
Com corpos enleados na lua
Mas que afinal nem se viam
Brilhando mais que lábios perdidos
Beijando-se sem coordenadas
Como quem vai à deriva
Pensando encontrar algum porto
Julguei que eram só os seus olhos
E a minha fantasia
Nos quais eu ia à deriva
E se mais longe eu estava
De tudo que para trás ficara
Apanhava uvas no cio
Na popa de belas palavras
Que vão muito além do seu rosto
que rasgam muito mais que enxadas
Não soube mais se era António
Ou sequer se era José
Ou cego o quanto bastasse
Para escutar o invisível
Da proa rasgando as águas
Entre as minhas coxas e as suas
Enquanto o comandante bebia Whisky
O que se perdeu erguia-se
A casa das máquinas fervia
Os meus pés viam mais longe
Mesmo se a minha boca era de monge
Formavam-se cavalos em gritos
Nas sombras que a lua me orava
Se viajei é bem provável
Nos seios das suas metáforas!
manuel feliciano
De Barcelona e do mundo
Oferecendo os seus cabelos ao Tejo
Como rastos de navios
Na desembocadura da Cruz Quebrada
Ex-Oficial da marinha
Acordei da letargia
Pensei que não havia mar como dantes
Daqueles que deixam lágrimas nas costas
E onde podemos apanhar figos
Ao comando de uma ilusão
Talhada em ferro e madeira
Feito de memória e de vida
Em que o azul eram os abraços
Em que esquecemos todos os perigos
Em biqueiras de sapatos
O mar ficou menos salgado
Com corpos enleados na lua
Mas que afinal nem se viam
Brilhando mais que lábios perdidos
Beijando-se sem coordenadas
Como quem vai à deriva
Pensando encontrar algum porto
Julguei que eram só os seus olhos
E a minha fantasia
Nos quais eu ia à deriva
E se mais longe eu estava
De tudo que para trás ficara
Apanhava uvas no cio
Na popa de belas palavras
Que vão muito além do seu rosto
que rasgam muito mais que enxadas
Não soube mais se era António
Ou sequer se era José
Ou cego o quanto bastasse
Para escutar o invisível
Da proa rasgando as águas
Entre as minhas coxas e as suas
Enquanto o comandante bebia Whisky
O que se perdeu erguia-se
A casa das máquinas fervia
Os meus pés viam mais longe
Mesmo se a minha boca era de monge
Formavam-se cavalos em gritos
Nas sombras que a lua me orava
Se viajei é bem provável
Nos seios das suas metáforas!
manuel feliciano
9.08.2010
Quando eu te tenho
Quando eu te tenho
O mundo está à distância dos teus olhos
O mar que é grande cabe-nos nas mãos
Há glaciares que nos derretem nos beijos
As laranjeiras secas dão laranjas cheias de sumo
Tu és o Ouro e a prata que eu não tenho
O Inverno é frio mas amadurece
Os frutos alvos do teu rosto
O escuro é uma manhã tal como um rio desamarrado
Que quebra o som dos tijolos e dos escravos
E os deuses moram-nos tranquilamente sem cortinas
Os nossos cabelos são árvores no deserto
Nós apanhamos mesmo pêssegos nas nuvens
Sem necessidade alguma de os comermos
Quando eu te tenho
Basta-me a luz dos meus olhos na tua voz
O crepúsculo do teus pés na minha sombra
Somos ponte de saliva que não se desmancha
O universo é-nos só um pequeno ponto
Que nos teus dedos germina multidões
De grãos afectuosos na minha alma
A tua ausência é o reflexo de que me habitas.
manuel feliciano
O mundo está à distância dos teus olhos
O mar que é grande cabe-nos nas mãos
Há glaciares que nos derretem nos beijos
As laranjeiras secas dão laranjas cheias de sumo
Tu és o Ouro e a prata que eu não tenho
O Inverno é frio mas amadurece
Os frutos alvos do teu rosto
O escuro é uma manhã tal como um rio desamarrado
Que quebra o som dos tijolos e dos escravos
E os deuses moram-nos tranquilamente sem cortinas
Os nossos cabelos são árvores no deserto
Nós apanhamos mesmo pêssegos nas nuvens
Sem necessidade alguma de os comermos
Quando eu te tenho
Basta-me a luz dos meus olhos na tua voz
O crepúsculo do teus pés na minha sombra
Somos ponte de saliva que não se desmancha
O universo é-nos só um pequeno ponto
Que nos teus dedos germina multidões
De grãos afectuosos na minha alma
A tua ausência é o reflexo de que me habitas.
manuel feliciano
9.07.2010
Liberta-te
Liberta-te
Nasce o sol nos verdes montes
Descendo pela serra do Marão
As águas correm-lhe nas costas
E cantam pelos cabelos da vida
Que se entregam com amor ao mar
E quantos marujos amargurados
Com ovelhas e um cajado
Conhecem o sal desta vida?
Mas nunca lhe dizem que não
A pobreza é uma alegria
Quando a aceitamos por bem
Uma côdea seca de pão
É cristal no céu estrelado
Na casa da escuridão
O pobre é estátua de pedra
Com um pássaro sem asas
O doente vidro quebrado
Com as algemas nas mãos
Mas não deixa de ser digno
Mesmo se o rico é luxúria
A felicidade não compra
A caravela de trigo
Que nos leva ao Destino
No doce cantar de ceifeiras!
Alegremo-nos com todo o pouco
Bebamos mesmo onde não há
Olha a dor é um passarinho
Não o quero na gaiola
Do meu corpo cheio de grades
O capitão é o mistério
Conhece o porto já de cor
Por favor batam-lhe palmas
O importante é que cheguemos
Onde nem os olhos sonham.
manuel feliciano
Nasce o sol nos verdes montes
Descendo pela serra do Marão
As águas correm-lhe nas costas
E cantam pelos cabelos da vida
Que se entregam com amor ao mar
E quantos marujos amargurados
Com ovelhas e um cajado
Conhecem o sal desta vida?
Mas nunca lhe dizem que não
A pobreza é uma alegria
Quando a aceitamos por bem
Uma côdea seca de pão
É cristal no céu estrelado
Na casa da escuridão
O pobre é estátua de pedra
Com um pássaro sem asas
O doente vidro quebrado
Com as algemas nas mãos
Mas não deixa de ser digno
Mesmo se o rico é luxúria
A felicidade não compra
A caravela de trigo
Que nos leva ao Destino
No doce cantar de ceifeiras!
Alegremo-nos com todo o pouco
Bebamos mesmo onde não há
Olha a dor é um passarinho
Não o quero na gaiola
Do meu corpo cheio de grades
O capitão é o mistério
Conhece o porto já de cor
Por favor batam-lhe palmas
O importante é que cheguemos
Onde nem os olhos sonham.
manuel feliciano
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