9.24.2010

A beleza

A beleza não é
Um rosto rosado
Com um sorriso plantado
Num vaso sem terra.

É Nova Iorque
Inteira na unha
Do meu polegar.

Uma mulher sem braços
Escrevendo-me pássaros
No coração da boca.

Não é Auschwitz
Bordado num beijo
Que se quer sério
E cheira a infâmia.

A beleza
Sou eu de muletas
Erguendo-me
Em sílabas urdidas
No gume da faca.

Por navios de pedra
Desfragmentado
Todo por inteiro
Acenando feliz aos lenços
Que não me acenam.

Com lágrimas de rendas
Pelo teu doce veneno
Que cuspo…

manuel feliciano

A natureza é indomável

A natureza é indomável
Conhece bem o seu papel
Não age para roubar o acto
Aqui não é o fim da cena
Senão teria que nos matar a todos
Mas ela poupa só o que pode
Erguei bem alto o que vos habita
Sóis menos que uma gota de chuva.

E deixai que a misericórdia vos escorra
E obreiros humildes vos cavem
Há gritos sim e para sempre
Para que saibais que aqui
O mundo fica na trilha do sol e do sal
Da escuridão e do luar
Sem poupar o predador e a presa.

E quem disse que o sol se esconde
Dos gritos nos cemitérios?
O sol esconde-se é dos vivos
Para se enganarem a eles mesmos
Com riquezas e fortunas
Puxando carroças de burros.

Enquanto os espíritos vagueiam.
Sem laivos que ainda pairam
Da semente da escravatura
Mas que o sol põe a nu.

O sol cumpre o seu papel
Agora o homem não
Nem com aviões de azul
Nos deixa comer as estrelas
Há estrelas que cheguem para todos?
Mas o homem é a carne do vento
E é feito da poeira dos astros.

O homem é metalinguagem
Cadáver metafísico
Abstracção em si mesmo
Melodia de Beethoven
Corpo para se aquecer?
Eu nunca vi sequer o meu.

Se um dia os sonhos
Forem partos ensanguentados
Nas pálpebras dos vossos olhos
O sol nem por isso é covarde
Levará a farinha aos vivos
Iluminará as sendas aos mortos.

O sol só não é sol, para homens feitos de cal
E as leis do destino só visam a eternidade
Quantos andam pelas ruas
Que na verdade nunca nasceram
E sendo assim nunca morrem.

E há gente morta tão viva
Caminhando ao meu lado
Porém, não comais é tudo
Porque nada disto vos pertence
A não ser a finitude no jardim das ilusões
Porque um dia haveis de saciar mesmo sem boca
E a pobreza devolverá-vos o lugar.


Manuel Feliciano

9.23.2010

A música do sexo

Nasce-te o sol nos cabelos
E escorre-se-te pelo colo
Em música de licor
Com pão-de-ló molhado
Metáfora na língua
De um campo baldio
Jangada de cio a céu aberto.

Desconcerto-te os lábios
E os meus dedos – pautas
Pingam-te mel no rosto
E no rocio maduro das mangas
Dou-me aos teus mamilos
Num sopro de aves.

Em cañones no Peru.
Semântica lacustre
Nos verbos da pélvis
Sintaxe descoordenada
Com todo o nexo.

Espasmos ruem-nos
Sem nenhum destroço
Luas entre as nádegas
E ergue-se me uma árvore
Em húmidas amoras
Pelos lábios salgados
Mordem-nos hienas
E esvoaçamos em brumas.



manuel feliciano

9.22.2010

Os poetas e as mulheres loucas

Os poetas conhecem mulheres admiráveis
Mulheres puras
Sem pressa
Sem rush pós parto
Imperfeitas em toda a perfeição
Que tragam deliciosamente
E olham sem esgoísmo.

Que amam deficientes
Loucas
Anjos
Abandonadas
Sem a doença da sanidade
Mulheres que vêem para dentro
Imprevisíveis
Impossíveis com toda a possibilidade
Não teatrais
Não virtuais
Bissexuais
Alternativas
Vivas de eternidade
Como brasas à chuva.

Agora aqui
Nestes cantinhos abrigados
De chão e ervas
Onde os sexos florescem
Mesmo no Outono
Em bicos de pássaros
Viagem aos astros e à lua
Verdadeiras
Nas asas de um gemido
Com sumo de melancia
Siderais com os corpos presos
Na chama, na lama, multifacetadas
Abraçam-me em arco-iris
Com um só rosto.

Desertamente habitadas
Onde um vaga-lumes nos leva
Por lugares únicos
Sem gravidade
Como o rasgar de um orgasmo
Melhor que um pêssego
Por que os poetas e as loucas
Andam de mãos dadas
Na maior sanidade e às claras
E não se escondem.



manuel feliciano

Merece-te

Olha-te por dentro
Como uma alva rosa
E retira o pó
Que te consome o pólen.

Grita às estrelas
Que te oferendem os olhos
E quando crianças
Não te morrerem à sede
Colhe pêssegos
Maduros nas têmporas.

E deixa que no Chade
Alguém tos coma
Escorre a surdez
Com que viveste
Vislumbra o rocio de anjos
Acordarem-te o cadáver.

E quem sabe assim
Por baixo de um rio que voa
Possas ser merecedor
Da tua própria morte.

Manuel Feliciano

9.21.2010

Contrariedades

O meu corpo foi à deriva
No azul faiscar das águas
Fundeado em macieiras
No porto azul de Roterdão.

Meridiano de Greenwich
Sem qualquer orientação
Num quadro de um pintor
Pintado a mel de abelhas.

E o meu coração por dentro
No fogo dos teus cabelos
Qual chilrear de cascatas
Suspira no teu degredo
Flor no pólen de uma faca.

Sangrando mesmo sem sangue
Na canoa solar de um beijo
Que demos mesmo sem lábios
Teus pés torrentes de chuva
Foram sol nas minhas costas.

E também um mar de trigo
Abraços de branca farinha
A tua voz suave do Árticto.
Um farol por entre as sombras
Atraquei-me ao teu sorriso
Liberto como um condenado.


manuel feliciano

No Pó da Memória

No Pó da Memória. Deitado nas areias do Castelo.
Na paisagem boquiaberta do Porto.
Deixei para trás couves arquitectónicas com cristais.
E tinha o mar em frente como um campo cheio de trigo.

A surrealidade de mulheres pintadas nas rochas.
Com sorrisos molhados emprestados pelas ondas.
Sozinho na escuridão dos afectos. Era luz transmutada.
O sol deu-me a provar pêssegos pelos dedos.
E eu só tinha a virgindade dos meus 18 anos.

Até que uma mulher morena desceu pelas escadas.
Pousou como uma gaivota. Despiu-se na toalha.
E os seus frutos cobriram-se com um biquíni de arroz.

Ainda pensei que fosse um altar moldado a rosas brancas.
Embebedou-me com olhares como pássaros nos frutos.
Disse-me despida como uma árvore no Outono.
Com a alma gemendo música e os pés quentes de frio:

- “A música que ouço incomoda-te”?
E eu respondi-lhe com o meu rosto rosado.
-“ Não me incomoda mais que as ondas que me rasgam”
E não me deixam nenhuma canção.
- "Pelo menos tu choras-me em música nos teus olhos."
Na virgindade dos meus 18 anos ficou um mundo por cumprir.

E voltou a retorquir: “ Podias-me dizer as horas?”
Mas eu conhecia-lhe tanto o corpo e a alma.
Que eu acho que foi uma irmã que perdi há muitos anos.
E ela arrefeceu como o Outono e as folhas amarelas
Tornaram-se o meu o Sol como quem nunca o viu.
Ao meu silêncio letárgio da neve sobre os telhados.
E na presumível tristeza de eu ficar estático como uma pedra.
Na virgindade dos meus 18 anos, levantou num voo tão presente.
Como uma gaivota no azul do céu, e deixou-me acompanhado.

E eu traguei tudo como quem a toca em transparência.
E segui o jardim pelo Castelo com ela ao Colo.
Na virgindade dos meus 18 anos amamo-nos como anjos.
Porque era carne da minha carne e beijos dos meus beijos…
E estava-me tão lavrada por dentro que éramos um só.
Tu ainda hoje sabes que só somos um mistério inacabado.
Nada se perde quando a alma é os olhos abraçada a ti.



Manuel Feliciano

9.20.2010

Homem antitético

Não vivas só por viver,
Não digas só por dizer,
Não ames só por amar,

Não queiras ser só mais um,
Como quem é nenhum,
E pensa ser muito mais,
Que uma gota de orvalho.

Rio sem boca.
Rio sem braços.
Rio sem sexo.

Olhar minifundiário.

Correndo sem ter leito
Atravessando
A rua branca de lodo
Para se fundir no mar
Como um abraço que se desfaz.

Onde a laranja amarela
É pútrida.
Farol na costa.
Nasceu na árvore sem flor
Sem qualquer abundância.

E os barcos soluçam à espera
Da profundeza das águas
Das montanhas submersas.



manuel feliciano

Sol em dia de neblinas

Não sei o que é colherem-me nos braços
Foi tão perfeito o dia em que não nasci
Não me esperaram ao fundo de uma rua
Nem reguei o jardim da minha infância
Como quem rega e colhe laranjas no sol
E escuta os braços quentes da minha mãe
Dizendo-me: "filho sai-me da margem".
Onde as águas levam olhares fugidios
Eu escutei a canção que nunca ouvi
E reguei contigo onde não havia chão
E laranjas que nos enchessem de sorrisos
Foi tão perfeito o dia em que não nasci
Mas sei a dor de ter perdido um filho
Sou a abstracção de um erro não parido
Por entre os girassóis de uma placenta
Subi as escadas todas que se me negaram
Eu não quis tragar a metafísica das coisas
E aconcheguei-te a boca quando me pariste.




manuel feliciano

9.18.2010

Delírios com a Giovanna

Quando eu te tenho
Com os lábios enroscados
Sabes-me a fogo
Um passarinho canta-me
Na boca
E a chuva brota
Tenras flores da Primavera.

Tu sabes bem
Que nosso peito se incendeia
Mas é só um rio que clareia
Um arco-íris
De hienas descendo ao tronco
E os meus dedos
Navios nos teus flancos.

A sombra brilha
Na tua ilha doce rubra
Como-te os frutos
Que não se vêem
E sabem-me a anjos serenos
Que me estão tão presentes
Como a brisa
Por entre as brumas
Que só são botões de rosas.


Há mil fontes
Que brotam
Por entre lugares secos
Das mãos aos pés
Tu és uma guitarra
Chorando mel
E eu o verão
No teu corpo antecipado.

E as estátuas acordam
Dentro de nosso sono
E o inferno
Sabe-nos ao azul do céu
E a gritos mordidos
Na minha língua
Espada de uma guerra
Sem sangue.

Vamos em frente
Pelo mar dos teus cabelos
Os nossos gemidos
São um farol
Até que as tuas ancas
Sejam meu Porto
E me amarres
como quem me desprende
Eu adormeça em ti
Como um desejo
Já mordido e insatisfeito
Mas sem âncora, mar adentro.


manuel feliciano