11.17.2012

Aos teus pés


PÉS


Sabes que mais

Os teus pés são a minha aldeia florida

Sei que a mémoria desagua nas pedras e nos troncos

E tu tens que estar

Dentro das pedras e dos troncos

Aqui a espera cansa mas não traz a morte

Porque a morte é trazer-te sempre viva

A morte é só quando um homem quer olhá-la de frente

Que me interessa que os rios desaguem nas estrelas

E tu estejas na altura das estrelas

Que me interessa que o mar seja feito desses troncos



Se tu e eu somos feitos disto tudo

A minha aldeia não tem mar

A minha aldeia não tem barcos

Só pedras e árvores floridas

Só silvados cheios de amoras

Na minha voz à margem de um caminho

È sempre um dia a começar à tua procura

Com a certeza que os teus pés são os meus olhos

Com a certeza que os teus pés são a minha alma.



manuel Feliciano

Os olhos da margarida

Nos olhos de margarida
Como uma espada lançada
À Sombra que o sol semeia
Há rios de inocência. A carne é de outro verão
No cimo das folhas
De amarelos pêssegos.

O mar tem outro Sal
que a boca puxa
Nas mãos de areia
As palavras
em cada grão
Na memória do corpo
O Sol chama a montanha
E em ti gera-se o príncipio

A tua pele reveste-me
Com a branca neve que cai
No pólen que a minha garganta atravessa
Num pássaro de névoa
Do barco para a árvore
Da água para a nascente
Vale a pena morrer nos teus olhos margarida.

Manuel Feliciano

Carnaval

Por que me fechas os olhos
Enquanto o carnaval passa?
Há tantas ervas moleirinhas
Quando me fechas os olhos
Há moças que abrem todas as paredes

O teu fechar dos olhos
Faz-me cócegas no coração
E as minhas pálpebras
Puti-abertas e cósmicas
Deixam-se semear

Uma luz sideral
De folhas vermelhas
Menstrua-me
Nas matizes do teu campo
Os candeeiros rompem-se

Oh misteriosa luz solar
De clareiras de seios
No fundo da minha covardia
Desfaz-se um fluido de cristal

E de cada vez que não me olhas
Cheira-me a lenha e a forno
Baptizando os meus lábios

Eu ceio do teu vinho
Eu ceio do teu pão
E a agua morre-me na luz da tua boca

Coloco nos meus dedos os aneis do teu olhar
Sobre um fevereiro florido
Para que te vestes de morte?

Um olhar teu
Maior que a dimensão solar
Alaga-me
Dos teus corais
E piamos
Piamos como corvos
No teclado das asas

Tu és uma laje nua…
Da cor da amendoeira
Com que gozamos de orgasmos
E os Deuses dentro de nós

Agora eu sei. Tu fechas os olhos para me aqueceres.
Para sentires o cimo do mar enrolado nas tuas nuvens.
O odorante incenso nas tépidas costas!

Manuel Feliciano
As cerejeiras onde vivo
Estão alagadas de flor
Porque morreram de frio
De sorriso a transbordar no rio
Em cada socalco
E pálpebra

Eu não sei do teu grito
Nem do teu Deus
E da chama do teu tronco

Só te sinto
Só te sinto - na lavoura quente
na terra da boca

Ah quantas vezes eu te sinto
Nesse sol que escurece
A tua pele tão branca
O teu sangue que adormece
E em mim sempre acorda

E os teus braços vazios
Varridos de folhas
Colhem o meu deserto
De areias e cactos
De crianças onduladas
vergadas para o céu

Ainda molhado de placenta

Para que quero as palavras mãe?
Se elas não cabem em nenhum lugar
Se elas são feitas de uma noite qualquer
Se todas elas estão mortas
E em mim corre toda a sede
Do perfume do teu seio
Ao cume ofegante das raizes

Senão flor para atravessar o mar
O hálito para dar a vida às folhas secas
E amamentá-las tão verdes
Nos seios e nos olhos
E o mar dentro dos troncos
E os peixes dentro da nossa floresta
Basta-me que ames
Aperta-me a boca amor
Neste Douro Florido
Sem nenhuma palavra como a noite!
Aqui é onde Deus me abre todo o seu útero.

Manuel Feliciano
O que em ti há de mais feio é uma rosa
Em todo o seu aroma de estrela

Os teus olhos fecham-me
E as flores
Bebem o mel nas abelhas

As pálpebras dos lábios abrem-se

Toda a noite é clara
Na lamúria
De um beijo no seio
Ouve-se o mar
Pleno de gaivotas a nascer no sol

Depois as palavras
Feitas de nuvem
Perfumam as nossas bocas

Que sabem aos teus pés
A semear aves nos lábios
E ninhos em toda a floresta

Onde todo o barco morre
Onde todo o barco nasce

É sempre o que me dizes
Quando não me dizes

O teu não dizer
É um poço de água numa mão
Um fio de cabelo
A descair-te para o colo
Alargar-me a boca

E a minha face rosada
Um deserto
Voltada para os teu dedos
Beduínos
Com trilhas e camelos
Na faina da tua voz

E o que em ti há de mais belo é eu saber
Que o que em ti há de mais feio é uma rosa!

Manuel Feliciano
E se eu for. Em aromas de barcos
Pelos teus cabelos ofegantes
E a tua delicada boca. Eu adorar-te-ei sem medo

E se tu. Da terra mais silenciosa
Dos rios adormecidos me disseres:
- Vem por aqui estranhamente. Pelos meus braços
Saliva feita de ponte
O fim do mundo! O mar ausente.
Os lábios transparentes. Nos meus estranhos seios

A tua pele é onde o céu nasce. As ervas se orvalham
O escuro mergulha contra o teu umbigo

No barro que desconhece o corpo: As tuas pernas abrem-se

E o SOL em torno das tuas axilas gira

Na bíblia do teus poros: nos profetas da minha língua

Chove em África e as crianças bebem O Deus Verdadeiro

Não me peças para te adorar só hoje: Tu fazes parte

Da Luz mais secreta do mundo: Aquela que me tem comido a boca

Habitado o sangue! Eu quero ir. Vestido da tua brisa.

Pelo teu corpo absoluto.


Manuel Feliciano

11.15.2012

Nenhum poema mais se atreva
Eu sou livre de todas as palavras
De todos os rostos
Definhando em flor


Ainda que meninas de pernas macias
De rostos brancos
Fintem os olhos
E corem no sangue das romãs
Enquanto as mãos gelam de amor


Nenhum poema mais se atreva
Ao orvalho da minha língua
Ao chão do meu corpo
Enquanto eu não for erva
Folha amarela
Um barco a rebentar na árvore
A morte que tu não trazes e o meu beijo em sangue
O fogo desmanche as flores
E volte à origem da saliva

Nenhum poema mais se atreva
Digo-te aconchegado com as minhas mãos na flor da tua pele
E as oliveiras vergadas, quentes, menstruadas
No hálito dos teus cabelos

E os meus olhos dentro dos teus
É noite, sempre noite

E reacendo


Na minha boca a saber a mar! Incómoda
Um dia a entrar no sol e nas gaivotas
O teu cheiro trespassando as névoas
A gemer em teu caís! Depois de mim.

Manuel Feliciano
Cheira a mosto as tuas mãos
Quando vais embora

E a tua carne meu amor
Pão de tantas horas

E o teu vinho
A minha garganta plantada do teu tronco

De videira florida
De amor que só nasce

Vou ficar a olhar-te
Porque Embora é uma noite que não chega
Cheia de lábios
E olhos
E o coração que arde

E o orvalho são os nossos beijos
Sem cestos carregados de uvas

Oh não tenho carne para o amor
Nem veias onde o tempo corra para o lagar

Só te sei viver sem fim e lonjura

E palavras de um outro mar

Dou-te as mãos. Nenhum velho morre mais
Nas paredes de uma janela.

Manuel Feliciano

Sentado contigo

Ribeiro, corre ainda para trás
Sobe
Lentamente à montanha
Pedra por pedra
O leito é agora que te desço, amor
Os meus pés no teu rio
É cedo muito cedo, amor

Ah nenhuma célula se atreva
Há ternura
Crianças à lareira
Quando o meu olhar sem o teu olhar
Já se sentem
Na minha boca tão fria

O teu tronco pela brisa
Altar ainda tão nú
E as minhas mãos a asseá-lô
A flores tão somente vivas no jardim
Cheias de sede dos pássaros

Morrer é só a beleza
De te dar os meus braços
De cheirar a tua flor
As pétalas já caidas
A refazer os lábios
De uma tarde que não chega
E tudo em flor

As minhas mãos nas tuas
Maçãs que mordemos
E que nos saem da boca
E restam em brasa nos ramos
Rio por inventar na médula dos barcos
O meu rosto ferve

Na saia molhada no mar
O mar
O mar...
Onde está mar?
Que ainda nem existe, amor.

Manuel Feliciano

1.14.2012

Retrato de Outono

O mar e a areia no mel dos figos

Trazem os teus pés pela pálpebra quadrada

E dizem

Que a água do mar não tem água

E a minha boca são os teus chinelos

ignota flor todo este saber - as tuas pernas são tão boas

O miolo do sol que se impregna

num suposto azul - és tu

Toma

o calor das queimadas

que desperta o frio adormecido

E anoitece-és da cor do sol

acreditas?

não fazer copos de outros corpos - a televisão não capta

A bebê-los com o vinho

a transgredir o sol

Isso sim é o fogo que resta da ferida!

Agora ficas a saber que nada tem um príncipio

nem tão pouco um fim - beijos em saibro

só o aroma das cinzas que nunca arderam

dá-me as tuas mãos de iodo e vamos!

Hoje o que vai e o que fica- É o vinho a reiniciar o mar

garganta dactilografada a núvem

mais verde que a floresta - sabe-me tão imensamente a ti

Os ossos não nos querem meu amor - sorri

O cão ladrou - abre a porta-abre a porta

alguém quer saber de nós ao fim ao cabo - Pão da tua pele

Não morremos? Não há portas meu amor

Faca debulhada na boca - o que somos

Não há portas meu amor- não as abras-sente o jardim!



manuel feliciano