Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe
E o coração saber-te-á por inteiro
Não me abraces: diz amor amor em gestação
Depois acaricia o feto e alegra-te
Como uma flor transformada
Com a voz dentro de outra voz.
Não me beijes: Sente a tua barriga em lume
A iluminar-te sem peso
Com o teu corpo vergado
E um pouco mais de ti a estender-se
E o teu eu em outro eu.
E se por ventura chorares
É porque às vezes o choro é uma forma de sorrir profunda
E o amor é um filho dentro da boca
E o umbigo é o rio que nos enlaça
Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe
Mas não te esqueças com o mar nos lábios
Porque o amor dói como o sol em carne
O amor é morrer para ser outro.
manuel feliciano
11.17.2012
Os teus seios
Os teus seios, ai os teus seios
Redondos como a alma humana
Silenciosos da cor dos gemidos
beijo de mar nos olhos
Curvos com toda a extensão
Escrevem nas lascas dos lábios
A mudez a arder de gozo
E enquanto morro é vale vivo
E enquanto vivo procuro o vale
E as palavras curvas
E os beijos curvos
Que voltam ao mesmo ponto
Ao mesmo olhar
Feito de coxas macias
Qual timbre da chuva na cara
Qual sol a beliscar o arvoredo
É quando a terra deixa de existir
Nos teus seios de ardósia e uvas!
manuel feliciano
Redondos como a alma humana
Silenciosos da cor dos gemidos
beijo de mar nos olhos
Curvos com toda a extensão
Escrevem nas lascas dos lábios
A mudez a arder de gozo
E enquanto morro é vale vivo
E enquanto vivo procuro o vale
E as palavras curvas
E os beijos curvos
Que voltam ao mesmo ponto
Ao mesmo olhar
Feito de coxas macias
Qual timbre da chuva na cara
Qual sol a beliscar o arvoredo
É quando a terra deixa de existir
Nos teus seios de ardósia e uvas!
manuel feliciano
Verão quente
Quero-te mais que a pele do teu corpo
Que o céu quer às estrelas
E é só isso que quero que seja a morte
Sono dinâmico do beijo
O meu amor extremo de outro corpo!
Ah se soubesses como te amar
É ter todos os caminhos sem caminhos
É não conhecer mais o fim
Só o das palavras
Que se alongam
Em raízes de barcos
E não mais se desfazem
Em faces na chuva
Ah se soubesses como tu e eu
Somos o céu
E o que fica para além
Que arranhas com as unhas
Ainda todas por sentir
Sempre por sentir
E já se sentem
Bordadas ao pescoço
Como é belo este assombro
De corda de violão que se estica
Do bico à asa
Do céu ao bico
Neste verão escorrendo em primavera
Com uvas doces cheias do teu grito.
manuel Feliciano
À minha Pátria
Só Tu és a minha terra
O meu idioma.
Eu não sei de que terra sou
Que idioma falo
Quando te beijo – amor
Levanto a neblina
Solto os rios adormecidos
De nuvem sobre os braços
Deito a minha cabeça contra os teus ombros
Bebo luas de trigo nos teus cabelos
Que os meus dedos desfolham
Semeio sêmola de barco nos teus lábios
Sonho o mar que soluça
Na tua garganta – entre duas falésias
E desancoro o túmulo ardente dos pinheiros
A voz molhada de caranguejos e duna
No meu olhar perdido e soberano
Acho-te
vestida de abraços e beijos
Ao clarear da aurora
Desovam-me flores e equinócios de pássaros
Neste país despido
como uma árvore de Inverno
Tu dás todas as flores
Neste bravio de pedra
Que o sol molha nos corais da boca
Tu ainda és o céu
Da minha terra e idioma
O meu amor. A minha Causa.
Manuel Feliciano
O meu idioma.
Eu não sei de que terra sou
Que idioma falo
Quando te beijo – amor
Levanto a neblina
Solto os rios adormecidos
De nuvem sobre os braços
Deito a minha cabeça contra os teus ombros
Bebo luas de trigo nos teus cabelos
Que os meus dedos desfolham
Semeio sêmola de barco nos teus lábios
Sonho o mar que soluça
Na tua garganta – entre duas falésias
E desancoro o túmulo ardente dos pinheiros
A voz molhada de caranguejos e duna
No meu olhar perdido e soberano
Acho-te
vestida de abraços e beijos
Ao clarear da aurora
Desovam-me flores e equinócios de pássaros
Neste país despido
como uma árvore de Inverno
Tu dás todas as flores
Neste bravio de pedra
Que o sol molha nos corais da boca
Tu ainda és o céu
Da minha terra e idioma
O meu amor. A minha Causa.
Manuel Feliciano
Dá-me a mão
e vem comigo
Não há água que molhe o fogo. Nem fogo
Que perfure a água.
Não temas
Bem sei que os teus cabelos
campa desarrumada
Onde me sepulto contigo
São videiras a arder de frio
No vale seco dos meus lábios
Ouço-te muito mais à frente
Do florescer ao rebento
E todo eu no teu útero
Ardemos e não ardemos
Morremos e não morremos
Não temas
És terra de uma outra terra
Céu de um outro céu
Porque o meu corpo e o teu corpo
Palavras em gestação
São bocas por ordenhar
São as que temos e não temos
Dá-me a mão
E vem comigo
Colher com amor as uvas
Não há água que molhe o fogo. Nem fogo
Que perfure a água.
manuel feliciano
Pensas que me podes negar o amor?
Pensas que me podes negar o amor?
Pensarás tu que é um olhar que o justifica
Um pássaro de fogo na garganta
Ah se o amor fosse
Tu quereres ou não quereres
Também o sol não dobraria o escuro
Nem a neve perdoaria ao sol
De a lamber tão de mansinho
Porque enquanto queres e não queres
Eu beijo-te loucamente
Como o luar as uvas
E não me condeno
Porque o amor inunda-me
Dos arrozais dos teus seios
Sem que os canais dos teu braços me reguem
Ah quantas vezes os beijos
Os abraços
E as palavras
São céus que não chegam a ser céus
E mares despidos do azul das línguas
Ah tudo o que te quero falar é amor
Planta que não conhece a terra
Sempre maravilhosamente só
Com todas as estrelas gemendo
Em nossas bocas tão juntas
E porque não tenho carne
Revisto-me da tua carne e não espero
Enquanto os meus olhos vazios são os teus cabelos
manuel Feliciano
Pensarás tu que é um olhar que o justifica
Um pássaro de fogo na garganta
Ah se o amor fosse
Tu quereres ou não quereres
Também o sol não dobraria o escuro
Nem a neve perdoaria ao sol
De a lamber tão de mansinho
Porque enquanto queres e não queres
Eu beijo-te loucamente
Como o luar as uvas
E não me condeno
Porque o amor inunda-me
Dos arrozais dos teus seios
Sem que os canais dos teu braços me reguem
Ah quantas vezes os beijos
Os abraços
E as palavras
São céus que não chegam a ser céus
E mares despidos do azul das línguas
Ah tudo o que te quero falar é amor
Planta que não conhece a terra
Sempre maravilhosamente só
Com todas as estrelas gemendo
Em nossas bocas tão juntas
E porque não tenho carne
Revisto-me da tua carne e não espero
Enquanto os meus olhos vazios são os teus cabelos
manuel Feliciano
Adão e Eva
Não me digas nada
Quero-te
Jardim despido
Flor
Infecundada
Lábio por lábio
E mãos incriadas
Desvive-me
De pó e Eva
E maçã trincada
Dos joelhos
À boca
Em fios de saliva
E pássaros
De língua
Entre o céu salgado
Sem estrelas
Na minha garganta
Não te prometo Deus
Porque os meus olhos
Não sólidos
Não sabem a maçã
De árvore
Errada
E Sóbria
Da qual me desveneno
Senão aos teus pés
Chão do paraíso!
manuel Feliciano
Quero-te
Jardim despido
Flor
Infecundada
Lábio por lábio
E mãos incriadas
Desvive-me
De pó e Eva
E maçã trincada
Dos joelhos
À boca
Em fios de saliva
E pássaros
De língua
Entre o céu salgado
Sem estrelas
Na minha garganta
Não te prometo Deus
Porque os meus olhos
Não sólidos
Não sabem a maçã
De árvore
Errada
E Sóbria
Da qual me desveneno
Senão aos teus pés
Chão do paraíso!
manuel Feliciano
Tudo o que não fui
Manuel Feliciano – Poeta português contemporâneo e universal
Tudo o que não fui
Eu também fui e sou
Quantas vezes estive perto e não cheguei
A essa flor que tanto me doeu
E porque me doeu
Soube-me à tua boca e sangue
Dentro de tudo o que já secou
E porque secou
Amo-te
Vives-me
E não morreu
Porque sou feito da morte das ervas
De olhos abertos
Nas mãos do mar
E peixes
Que reluzem na escuridão do céu.
De tudo o que faltou
tu és a própria voz
Dentro da minha voz
cheio de gramíneas
que os pássaros tanto querem
e um ninho no coração
E tudo o que não fui
Eu também fui e serei
Criança a abrir a porta do vento
No seio de sua mãe.
Manuel Feliciano
Tudo o que não fui
Eu também fui e sou
Quantas vezes estive perto e não cheguei
A essa flor que tanto me doeu
E porque me doeu
Soube-me à tua boca e sangue
Dentro de tudo o que já secou
E porque secou
Amo-te
Vives-me
E não morreu
Porque sou feito da morte das ervas
De olhos abertos
Nas mãos do mar
E peixes
Que reluzem na escuridão do céu.
De tudo o que faltou
tu és a própria voz
Dentro da minha voz
cheio de gramíneas
que os pássaros tanto querem
e um ninho no coração
E tudo o que não fui
Eu também fui e serei
Criança a abrir a porta do vento
No seio de sua mãe.
Manuel Feliciano
Outono
Nasce-me neste Outono – amor
Deixei de acreditar na primavera
Tenho a boca cheia de febre
Na língua – sobrado do quarto cheio de uvas
Os teus queridos dedos lua morna
Na cabeleira do mar pelo colo
São pregos de carpinteiros entre os beijos
O sol na rima da saliva a naufragar
Eu bem te peço socorro
Mas tu não me ouves
O teu não ouvir é um monte claro
Onde sobejam giestas
E um ninho de palha
No pó da garganta
Um rio no umbigo
Do mar para a montanha
Colho-te maduras peras
Fecho os olhos e morro
Mergulho no precipício
Os teus braços são fundos
Contra as víboras das células – as tuas pernas
Ah as tuas pernas
Sacodem o pó
Desarrumam eixos e a direcção do lume
Porque não são pó
São os meus olhos
Brisa de âmbar sem ferrugem
Geografia inexistente
Na doçura dos dentes
As nuvens estão altas
O coração e a boca. E morrer é mais do que querer
Luz a transbordar o palato
Os dias não chegam. Os dias não bastam
E as flores eclodem para dentro do escuro
É Outono pleno de loucura
Nas minhas unhas reluzem as tuas coxas
E tu nasces-me, tu nasces-me
Tu não sabes morrer
É frio. As tuas mãos queimam-me
Na ininterrupta aurora
A folhagem dos seios remexida pelos melros
É o mar e as árvores que não se lêem
Depois do fim: Cheiro-te a pele- Estou vivo!
manuel Feliciano
Jesus Cristo
Porque te deixaram morrer?
Na voz abrindo-se na folhagem das pedras
As palavras nos ouvidos dourados das areias
O coração sempre do mesmo lado
O pregos no lugar dos dedos
As andorinhas piando na boca
O amor - mãe em carne viva
o meu coração não tem lugar para o teu fim
Pensas que faço uma vénia à múmia do mundo?
Clamo-te - E não te ouço
Num sorriso edificado
As tuas pernas sem mais mar
Uma árvore despida - Barco do teu dorso
Sem as moedas de César
Só espada que nada sabe da ternura
Os lábios que tudo sabem sobre a espada
Que Deus é esse que te mata de amor?
peco
Como eu peco meu Deus
no mais sujo de mim
há uma flor branca
E os teus pés para eu chorar
E cabelos de Madalena
doendo-me no pescoço
Nenhum Deus merece a tua morte
nem a tua palavra
nem o teu rosto
Só amoras nessa ferida tão tenra
na crusta dos olhos
Só os teus pés cansados da terra
A aliviarem-me - os lábios da ceia
de Crianças em eiras de milho
Dobando o mar em corações de papoilas
No beiral dos pássaros
uma árvore à espera da porta da tua mão
Que entre por esta boca tão pouca!
manuel Feliciano
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