3.13.2011

É na queimadura húmida da chuva
No magma quente das mãos em choro
Onde o sol lambe o mar das faces
E nos espremem a música dos olhos
E a proa das línguas ao vento
No limiar das velas que não hasteiam
Nas palavras sem o rubor do sangue
Nas rodas maduras sem eixos
Onde nos quebram todos os sonhos
E nos curtem a pele dos desejos
Em navios presos no útero
Que colho beijos que são só nossos
Que germinam no colo das pedras
E se convertem num azul de aves
Que estrelas dentro de nós semeiam.


Manuel Feliciano

3.07.2011

Pedi-te uma flor por dentro
Aquela que ao tocar-me, me torna outro
Alguém que eu mesmo desconheço
A que não encontro nos jardins
E faz do impossível um mar para p’ro mundo
A flor que segura as nossas mãos
E solda pontes quebradas nas línguas
Que me mostra o Paraíso por inteiro
Mesmo quando a lama me sufoca!


manuel feliciano
Quando os teus olhos me tocam
Num verde de mar profundo
Eu não sei de mim nem do mundo
Roçam-me limoeiros na garganta
Chilream pássaros nos troncos
E há lábios nos motores do barcos
E aves de água nas retinas
Jardins nas pétalas dos dentes
Por entre cardumes de sóis
E os corais brancos do colo
Morro por um cheiro que se ausenta
À medida que te busco nas coisas
E sabes-me sempre a tão pouco
Por mais que os teus olhos me louvem!


manuel feliciano
Se ao menos as palavras fossem nuas
Como uma mulher de chuva nas nuvens
E soubessem à pequenez das coisas
E nos despissem em ervas ingénuas
Quem sabe não germinariam rosas
As primaveras tão magras
Nos campos pútridos das almas
Nas latas velhas das bocas
Vissemos lábios a luzir na brisa
A desenrolar sorrisos nas folhas
O outro caberia-nos por inteiro
E o ego não teria as mãos tão frias.


manuel feliciano
Eu nasci para lamber as mãos das folhas
Viagens imaginárias em frutos secos
Tomar o pólen em bocas suturadas
E nos faróis submersos dos olhos
Esfregar a merda húmida das gaivotas
Que me ofusque um navio a soro
Num oceano inundado sem água
Atracar num sorriso de agulhas
Ah senhores vendilhões do Templo
Que o mundo conheceis tão pouco
Que me interessa a traça do dinheiro
E o corpo magro que me traz tão nú
Se caibo todo num grão de chuva
Se a vida é um tanto que se desfaz
Eu quero é a voz do que não se toca
Tenho fome a mãos cheias de nada
Que me encham o coração de além.



manuel feliciano

3.04.2011

Teresópolis

Em Teresópolis perguntei pelo coração da chuva
E as palavras anémicas da sua boca
Que fenderam o estômago da montanha
E as almas soergueram-se das minhas pálpebras
Correndo em planícies de sorrisos
Rasgando os muros do infinito
Escrevendo o amor em árvores sem tempo
E dando as mãos a estrelas que ainda choram
Riram-se da chuva nauseabunda sem memória
Incapaz de ter o amor que um dia a salve.


manuel feliciano

3.03.2011

Teresópolis

Fora de mim há um outro corpo
Porque me cansei das mão salgadas da espera
Da pele granitica dos lábios
De mulheres sentadas nas rugas
Da vontade dentro das lâmpadas
De verdades no óxido das gargantas
E como sei que nenhum tempo é dono de mim
Antecepiei-me ao nojo corrupto dos dias
Para colher de mim uvas douradas na chuva
Mesmo se ainda cheira a uma faca ensaguentada
Tão pútrida! incapaz de matar almas em Teresópolis.



manuel feliciano

Existir

Tenho o corpo tão magro por não existires
E o existir fica à distância de quereres
A tua cabeça ininterrupta junto da minha
E o dia fica tão tarde no húmido da tua boca
E se soubesses que o mundo se constroi com beijos
E a ciência não é um lugar seguro
Quebrarias a ilha das pedras com as palavras
Aquelas que deixam os teus braços estáticos
Enrolados no medo do céu dos olhos
Que impedem que voemos como gaivotas.


manuel feliciano

2.24.2011

Vou pelo caminho oposto

Vou pelo caminho oposto
À solidão das pernas
Beber no areal branco
O leite dos sorrisos
Onde não me negam
O cálice dos barcos
Ouvir a voz de árvores em fogo
Onde não não há Senhores do nada
Cobradores de um mundo improvável
E as feridas se trasmutam em girassóis
E os dias se amolecem na memória
Das línguas que se tocam paradas
Por flores que não me arranham
Tocar a boca vermelha das pedras
E os cabelos volumosos do silêncio
Pela noite que tem mais luz que o próprio sol!



manuel feliciano

Medo

Se ao menos o mar quisesse saber de mim
E a chuva não fosse uma bala perdida
E o cheiro da flor uma casa destilada
E a ressureição me atravessasse a boca de lés a lés
Eu nunca temeria o arrefecer da boca
Nem o Pôr do sol nas paisagens de arame
E esperaria que um barco de mel me atracasse
No canto dos meus olhos ultramarinos
Alegre com os pés molhados sem tempo para Saudades
Tocaria violino nos espinhos das rosas
Sem medo dos dias por inaugurar.


Manuel Feliciano