A chuva que clareou
Pela verdura dos montes
Nos olhos azuis dos sonhos
Em verticais navios
Desertos por marinheiros
Nas ondas ferradas dos dentes
Pelos ombros dos pinheiros
Despiu-se numa mulher de aveia
Nas rochas trémulas da boca
E só nos deixou uma sombra
Que incendiou o sol por dentro.
manuel feliciano
4.30.2011
A espera
O sol arrastado à cabeça de uma junta de bois
E tantos de nós com as pernas
Lavradas nas entranhas da terra…
Na aliança de dedos sem aneis
Disseram-me para esperar foda-se
Coisa estranha a puta da espera
Os braços sem braços
As pernas sem pernas
Até para nascer eu tive que esperar
Mas se ao menos esperar valesse a pena
Para a puta da vida me abrir as pernas
Estes dias de Ulisses na ilha de Calipso
E a Penépole a tricotar na minha garganta
Seriam ainda alguma coisa
Senão hoje vai ter mesmo que ser
Comer um desejo embalsamado
Esperar por uma noiva que tarda em chegar ao altar
E pensar o céu num canteiro
E ter que fazer disto um navio
E ter que fazer disto um Deus amável
E ter que fazer disto uma vida de santo
E ter que fazer disto um doce veneno
Depois que os bois lavraram estas entranhas
Há ratos à superficie
E as cobras atentam contra os ratos
E os ratos fogem da cobras
E eu fujo de tudo isto
Será que eu sou daqui caralho?
Deste jogo de cabra cega
Batendo com os cornos no muro
Como se não haja muros e cornos
E se ao menos o que eu digo fosse uma curta metragem
Mas não…esta merda é crometrada em câmera lenta
Para ser chupada
Lambida
Expurgada
Para entrar no céu completamento limpinho
Sem a toxiciade da nicotina
Não fossem os meus sonhos
A medula de uma pedra
Onde é que estavam todos os meus Deuses?
Onde é que eu poderia tomar um duche
Na maçaneta de uma porta
Onde é que eu poderia estar contigo definitivamente?
Com ternura
As mãos frescas e prontas
Com inocência e vulva
Na boca fresca da brisa
Com os joelhos em sangue nos meus olhos
A lembrarem duas flores vermelhas
Ah não vou gritar porque nenhum Deus vem salvar o mundo
Porque os Deuses também são escravos
Porque os Deuses esperam por tudo
Porque os Deus também são vítimas
Porque os Deuses também estão fartos
Desta máquina enferrujada que tinha que ser podre para ser vida!
manuel feliciano
E tantos de nós com as pernas
Lavradas nas entranhas da terra…
Na aliança de dedos sem aneis
Disseram-me para esperar foda-se
Coisa estranha a puta da espera
Os braços sem braços
As pernas sem pernas
Até para nascer eu tive que esperar
Mas se ao menos esperar valesse a pena
Para a puta da vida me abrir as pernas
Estes dias de Ulisses na ilha de Calipso
E a Penépole a tricotar na minha garganta
Seriam ainda alguma coisa
Senão hoje vai ter mesmo que ser
Comer um desejo embalsamado
Esperar por uma noiva que tarda em chegar ao altar
E pensar o céu num canteiro
E ter que fazer disto um navio
E ter que fazer disto um Deus amável
E ter que fazer disto uma vida de santo
E ter que fazer disto um doce veneno
Depois que os bois lavraram estas entranhas
Há ratos à superficie
E as cobras atentam contra os ratos
E os ratos fogem da cobras
E eu fujo de tudo isto
Será que eu sou daqui caralho?
Deste jogo de cabra cega
Batendo com os cornos no muro
Como se não haja muros e cornos
E se ao menos o que eu digo fosse uma curta metragem
Mas não…esta merda é crometrada em câmera lenta
Para ser chupada
Lambida
Expurgada
Para entrar no céu completamento limpinho
Sem a toxiciade da nicotina
Não fossem os meus sonhos
A medula de uma pedra
Onde é que estavam todos os meus Deuses?
Onde é que eu poderia tomar um duche
Na maçaneta de uma porta
Onde é que eu poderia estar contigo definitivamente?
Com ternura
As mãos frescas e prontas
Com inocência e vulva
Na boca fresca da brisa
Com os joelhos em sangue nos meus olhos
A lembrarem duas flores vermelhas
Ah não vou gritar porque nenhum Deus vem salvar o mundo
Porque os Deuses também são escravos
Porque os Deuses esperam por tudo
Porque os Deus também são vítimas
Porque os Deuses também estão fartos
Desta máquina enferrujada que tinha que ser podre para ser vida!
manuel feliciano
4.29.2011
Estrada adentro
É agora é que eu preciso de uma rua na minha garganta
E que tu ma possas pisar até doer...
Que a sola húmida dos sapatos
Que usas cor de rosa
Igual às rosas que gemem sempre em todas as primaveras
Sejam veados livres pastando na minha pele
Cheia de erva e pasto
E a tua respiração
A estrada repleta da carne do chão
Onde eu ouço as bocas que afinal
Não morreram
Acredita comigo
Que a minha garganta é a mesma das pedras da tua rua
Que as luzes todas que escutas é o mar
E o mar é a tua voz
E a tua voz sou eu contigo
O sol e a noite
A noite e o sol
Todos os dias na poeira dos ósculos que os rios engolem
Pela minha garganta até ao estômago
Sedento de peixes
Enleados aos teus ouvidos
Que é o nosso céu e as nuvens
Mortas por chover
Como couves mirradas por água
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Não fiques à espera de nada
Espera como quem corre para os meus braços
Rebentado ainda mesmo no Inverno das árvores
Nos desertos onde os barcos não crêem
Mas eu creio em ti meu amor
Como é que eu te posso dizer que creio em ti sem joio
Que as minhas pernas tolhidas
Estão cheias de um oceano mais alto que céu
E as minhas lágrimas estão cheias da tua cara
E que a tua alma agoniada
É um veleiro que me pesa e arde no cérebro
O sangue alimentando as estrelas
Mas pisas-me, pisa-me
Sempre que fores à missa ao Domingo
Não te esqueças que eu sou uma parte do domingo
E que os dias não teriam o mesmo sentido se não fossem pisados.
manuel feliciano
E que tu ma possas pisar até doer...
Que a sola húmida dos sapatos
Que usas cor de rosa
Igual às rosas que gemem sempre em todas as primaveras
Sejam veados livres pastando na minha pele
Cheia de erva e pasto
E a tua respiração
A estrada repleta da carne do chão
Onde eu ouço as bocas que afinal
Não morreram
Acredita comigo
Que a minha garganta é a mesma das pedras da tua rua
Que as luzes todas que escutas é o mar
E o mar é a tua voz
E a tua voz sou eu contigo
O sol e a noite
A noite e o sol
Todos os dias na poeira dos ósculos que os rios engolem
Pela minha garganta até ao estômago
Sedento de peixes
Enleados aos teus ouvidos
Que é o nosso céu e as nuvens
Mortas por chover
Como couves mirradas por água
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Não fiques à espera de nada
Espera como quem corre para os meus braços
Rebentado ainda mesmo no Inverno das árvores
Nos desertos onde os barcos não crêem
Mas eu creio em ti meu amor
Como é que eu te posso dizer que creio em ti sem joio
Que as minhas pernas tolhidas
Estão cheias de um oceano mais alto que céu
E as minhas lágrimas estão cheias da tua cara
E que a tua alma agoniada
É um veleiro que me pesa e arde no cérebro
O sangue alimentando as estrelas
Mas pisas-me, pisa-me
Sempre que fores à missa ao Domingo
Não te esqueças que eu sou uma parte do domingo
E que os dias não teriam o mesmo sentido se não fossem pisados.
manuel feliciano
4.27.2011
O luar das sombras
O mar prolonga-se nos cabelos das árvores
E as árvores sulcam a frescura do mar
Os dias não se bebem no latejar dos astros
SER é o único tempo
Enlaçado a todo o recomeço
como se os olhos magoem toda a verdade
Inocente
Pequena
Abismal
Enquanto que gotejamos na garganta das flores
Pensamos que não sabemos das flores, árvores e astros
Mas tudo isto nos arde
E nasce, sente, e envelhece connosco
E sentir é a visão do mundo
As únicas mãos pálpaveis
E a morte enlouquece-me com tanta vida
De meninas
Na sombra verde das árvores Como a brisa me encarne
Nas asas húmidas de frutos
Porque eu me dou todo por inteiro
Até que o grito infinito do amor
me colha nas pálpebras do berço
Onde até os Deuses choram
Com a mesma boca que me oferecem
Uma criança constante!
manuel feliciano
E as árvores sulcam a frescura do mar
Os dias não se bebem no latejar dos astros
SER é o único tempo
Enlaçado a todo o recomeço
como se os olhos magoem toda a verdade
Inocente
Pequena
Abismal
Enquanto que gotejamos na garganta das flores
Pensamos que não sabemos das flores, árvores e astros
Mas tudo isto nos arde
E nasce, sente, e envelhece connosco
E sentir é a visão do mundo
As únicas mãos pálpaveis
E a morte enlouquece-me com tanta vida
De meninas
Na sombra verde das árvores Como a brisa me encarne
Nas asas húmidas de frutos
Porque eu me dou todo por inteiro
Até que o grito infinito do amor
me colha nas pálpebras do berço
Onde até os Deuses choram
Com a mesma boca que me oferecem
Uma criança constante!
manuel feliciano
4.26.2011
Luar de sangue
Fiz do silêncio dos olhos
As palavras dos nossos braços
Do cérebro inflamado
A andorinha do teus pés
Da garganta com ponteiros
O teu vestido tão líquido
Da espera empedrenida
Um candelabro na boca
No chão que falseia
A ponte que nos segura
Do peito desfeito em terra
Duas bocas desejosas
Da exaustão em sangue
O teu corpo no céu
Mesa do meu prazer
Para finalmente comermos
O muito que ainda nos sobra!
manuel feliciano
As palavras dos nossos braços
Do cérebro inflamado
A andorinha do teus pés
Da garganta com ponteiros
O teu vestido tão líquido
Da espera empedrenida
Um candelabro na boca
No chão que falseia
A ponte que nos segura
Do peito desfeito em terra
Duas bocas desejosas
Da exaustão em sangue
O teu corpo no céu
Mesa do meu prazer
Para finalmente comermos
O muito que ainda nos sobra!
manuel feliciano
4.25.2011
Viris Sombras
Hoje uma voz disse-me que eu era eterno
E que as pedras afinal têm garganta e carne
Como que um vulto a engolir o deserto
E uma pápebra a consomir-me todo o pó
O pó de andar sempre à procura de não ter pó
E brilhar num grito
De uma púbis tão virgem
Cheia de palavras
E de um tesão branco
E uma laranja inchada respirou-me a alma
Que vida tão lubrificada escrita nuns lábios tão surdos
Que têm a sabedoria de ter a surdez do teu pântano
Retalhado nos collants do céu
Como se um choro enraizasse nas têmporas do tempo
E uma luz lambesse bocados do escuro
Com galáxias dentro de um lugar inabitável
Cheios de seres sem corpo
Uma noite coube-me toda na vulva da voz
De uma memória tão húmida
E gástrica que me ardeu nos neurônios
E o amor ressucitou pássaros de ervas já secas
E as minhas mãos
Onde estavam as minhas mãos?
Num décimo andar
Onde nenhum homem se lembra de cobrar impostos
Nem ninguém pensa dactilografar
No meu umbigo
Abelhas nos vasos das flores do canteiro
A sociedade vista de cima
Sombra do meu pênis a latejar
E ainda bem que se esqueceram de mim
E todos os frios se lembram de me trazer
Os teus seios para me aquecerem
Que não me trouxeram a esperança mirrada nos figos
E porque as minhas mãos estavam livres
Mamei o leite nas friestas da fome
Como quem vê o rio
A fugir ao longe
Trémulo de febre
Nas águas furtadas de um telhado
E ao longe num ocenano que eu mesmo desconheço
Eu esculpo nesta cicatriz com quem a purifica
O amor que ainda é uma árvore dúctil a nascer na chuva
E dou por mim a vir-me na quilha de um navio
A foder todos os séculos que ainda estão por vir
Que todos os que já foram não me sabem a nada.
manuel feliciano
E que as pedras afinal têm garganta e carne
Como que um vulto a engolir o deserto
E uma pápebra a consomir-me todo o pó
O pó de andar sempre à procura de não ter pó
E brilhar num grito
De uma púbis tão virgem
Cheia de palavras
E de um tesão branco
E uma laranja inchada respirou-me a alma
Que vida tão lubrificada escrita nuns lábios tão surdos
Que têm a sabedoria de ter a surdez do teu pântano
Retalhado nos collants do céu
Como se um choro enraizasse nas têmporas do tempo
E uma luz lambesse bocados do escuro
Com galáxias dentro de um lugar inabitável
Cheios de seres sem corpo
Uma noite coube-me toda na vulva da voz
De uma memória tão húmida
E gástrica que me ardeu nos neurônios
E o amor ressucitou pássaros de ervas já secas
E as minhas mãos
Onde estavam as minhas mãos?
Num décimo andar
Onde nenhum homem se lembra de cobrar impostos
Nem ninguém pensa dactilografar
No meu umbigo
Abelhas nos vasos das flores do canteiro
A sociedade vista de cima
Sombra do meu pênis a latejar
E ainda bem que se esqueceram de mim
E todos os frios se lembram de me trazer
Os teus seios para me aquecerem
Que não me trouxeram a esperança mirrada nos figos
E porque as minhas mãos estavam livres
Mamei o leite nas friestas da fome
Como quem vê o rio
A fugir ao longe
Trémulo de febre
Nas águas furtadas de um telhado
E ao longe num ocenano que eu mesmo desconheço
Eu esculpo nesta cicatriz com quem a purifica
O amor que ainda é uma árvore dúctil a nascer na chuva
E dou por mim a vir-me na quilha de um navio
A foder todos os séculos que ainda estão por vir
Que todos os que já foram não me sabem a nada.
manuel feliciano
4.23.2011
Mísero oferecer
Se era para me dares as tuas mãos
Que não tinham fome
Se era para me dares os teus olhos que não tinham sede
Desses-me antes punhais
Que os fazia anjos
Desses-me a noite que eu a tornaria lua
Trouxesses contigo o cantar do Outono
Que tem a miséria de ser grande
E de me iluminar toda a minha alma
E me dar as flores que a Primavera não soube!
manuel feliciano
Que não tinham fome
Se era para me dares os teus olhos que não tinham sede
Desses-me antes punhais
Que os fazia anjos
Desses-me a noite que eu a tornaria lua
Trouxesses contigo o cantar do Outono
Que tem a miséria de ser grande
E de me iluminar toda a minha alma
E me dar as flores que a Primavera não soube!
manuel feliciano
4.21.2011
Matéria Evanescente
Os teus olhos
Leio-os, até ao fim desse livro virgem
Desse mar do qual sou estranho
E dói-me o ruido dos pés
De feiticieiras ancestrais no absurdo dos muros que se prolongam
E o mole do beijo é tão duro.
O que sou? Pergunta-me uma noite de aço
Uma galinha sem crenças na lama.
A voz que sobeja por fora Sou tudo sem razão e ossos
E não consigo transbordar as margens. E o lábios não calculam o íntimo
E a memória rasteja a meio da ponte
Puta que pariu a máteria
Gritou-me uma voz de um tempo longo
E vejo o eco da minha sombra
Nos corredores evanescentes da boca.
Nas massa muscular do corpo
E os galhos de árvores voando nas aves
Sou muito mais que esta terra velha e seca. Que a surdez dos operários
Que a imagem obsuleta e escura
Num vestidinho cor de rosa
Eu vejo como a água corre
No cantar dos frutos
Os olhos são um lugar que nada veem
Tenho as mãos tão sofregas por nada saber dos olhos
Senão dos raios que lhes engolo
Mas os olhos são um lugar de assombro
São quando te beijo
Um livro fora de todas as leis do tempo
Nas malhas da pele.
E eis que ela me esmaga com as coxas
Como se uma mão me arda mais além
E me mostre o incógnito voo. O que me dá a percepção de alguma vez os ter visto.
manuel feliciano
Leio-os, até ao fim desse livro virgem
Desse mar do qual sou estranho
E dói-me o ruido dos pés
De feiticieiras ancestrais no absurdo dos muros que se prolongam
E o mole do beijo é tão duro.
O que sou? Pergunta-me uma noite de aço
Uma galinha sem crenças na lama.
A voz que sobeja por fora Sou tudo sem razão e ossos
E não consigo transbordar as margens. E o lábios não calculam o íntimo
E a memória rasteja a meio da ponte
Puta que pariu a máteria
Gritou-me uma voz de um tempo longo
E vejo o eco da minha sombra
Nos corredores evanescentes da boca.
Nas massa muscular do corpo
E os galhos de árvores voando nas aves
Sou muito mais que esta terra velha e seca. Que a surdez dos operários
Que a imagem obsuleta e escura
Num vestidinho cor de rosa
Eu vejo como a água corre
No cantar dos frutos
Os olhos são um lugar que nada veem
Tenho as mãos tão sofregas por nada saber dos olhos
Senão dos raios que lhes engolo
Mas os olhos são um lugar de assombro
São quando te beijo
Um livro fora de todas as leis do tempo
Nas malhas da pele.
E eis que ela me esmaga com as coxas
Como se uma mão me arda mais além
E me mostre o incógnito voo. O que me dá a percepção de alguma vez os ter visto.
manuel feliciano
4.20.2011
Medo de existir
Há um medo ao longe dentro de mim
Que nasce fora de tudo
Como eu seja o longe e todas a coisas me gritem
Digam-me quem eu sou
Que eu estou cego de tudo
Num clarão das madrugadas
Quebrem todo o meu medo
Numa boca quente
Terna de misericordia
Como se uma sílaba me falte nos cabelos
E as reticências não cessem as fontes
Onde eu danço despido
Tão despido que só posso ser
Eu
Tu
Nós
Flor e sombra
Floresta e sol no moínho das tábuas
E o silêncio da eternidade
A refazer outra voz
Porque eu não sei de mim nem da coisas
Como as conheça
Como as sinta a palpitar
Numa voz que me arde no peito
Que eu sinto no crepúsculo da língua
E me esconde de um qualquer lugar
Que me abraça e descontroi
Tenho medo
Como a minha mãe comigo ao colo
Não seja mar
Lágrimas e sorrisos embrulhados nos dedos
Mel nas flores e nas abelhas
E o coração Estrelas com gotas de amor
Como se tudo isto não baste
E a maravilha não me arda na garganta
Como eu esteja em tudo e pense que é só deserto
Este braços grandes da matéria dos lagos
Tenho medo
Como se o cheiro te esconda por detrás
E te diga não com a boca enrolada em névoas
E um corpo nasça do nada
com o sol a querer espreitar.
manuel feliciano
Que nasce fora de tudo
Como eu seja o longe e todas a coisas me gritem
Digam-me quem eu sou
Que eu estou cego de tudo
Num clarão das madrugadas
Quebrem todo o meu medo
Numa boca quente
Terna de misericordia
Como se uma sílaba me falte nos cabelos
E as reticências não cessem as fontes
Onde eu danço despido
Tão despido que só posso ser
Eu
Tu
Nós
Flor e sombra
Floresta e sol no moínho das tábuas
E o silêncio da eternidade
A refazer outra voz
Porque eu não sei de mim nem da coisas
Como as conheça
Como as sinta a palpitar
Numa voz que me arde no peito
Que eu sinto no crepúsculo da língua
E me esconde de um qualquer lugar
Que me abraça e descontroi
Tenho medo
Como a minha mãe comigo ao colo
Não seja mar
Lágrimas e sorrisos embrulhados nos dedos
Mel nas flores e nas abelhas
E o coração Estrelas com gotas de amor
Como se tudo isto não baste
E a maravilha não me arda na garganta
Como eu esteja em tudo e pense que é só deserto
Este braços grandes da matéria dos lagos
Tenho medo
Como se o cheiro te esconda por detrás
E te diga não com a boca enrolada em névoas
E um corpo nasça do nada
com o sol a querer espreitar.
manuel feliciano
4.19.2011
Páscoa
Pensas que amei essas lágrimas em cachos
A voz abrindo-se no útero das tábuas
As palavras nos ouvidos dourados das folhas
O coração sempre do mesmo lado
E os pregos no lugar dos dedos
As andorinhas ácidas na boca
E o amor de mãe em carne viva
Pensas que fiz uma vénia à múmia do mundo
A latejar de morte
E clamei pela casa desfeita
Num sorriso derrocado
E amei os gestos sem nenhum umbigo
Pensas que exaltei
As coxas da neve
Uma árvore despida
E as moedas de César
A espada que nada sabe da ternura
E os lábios que tudo sabem sobre a espada
Pensas que quis
Toda a brutalidade do homem
A podridão dos seus actos
Toda a alma suja e porca
Neste altar feito de esperança
Íngreme como um luar de Inverno
Quero que saibas ainda hoje que:
Vomito o chão e as suas visceras
Digo à brisa para expurgar o sal
À boca para não saber mais de si
Aos olhos para se envergonharem
Ao corpo para se desfazer nas nuvens
E ao sol que não traga consigo uma cruz
E o teu sangue que seja sempre uma flor a nascer
E a tua dor uma ave que quebre todo o céu rochoso!
manuel feliciano
A voz abrindo-se no útero das tábuas
As palavras nos ouvidos dourados das folhas
O coração sempre do mesmo lado
E os pregos no lugar dos dedos
As andorinhas ácidas na boca
E o amor de mãe em carne viva
Pensas que fiz uma vénia à múmia do mundo
A latejar de morte
E clamei pela casa desfeita
Num sorriso derrocado
E amei os gestos sem nenhum umbigo
Pensas que exaltei
As coxas da neve
Uma árvore despida
E as moedas de César
A espada que nada sabe da ternura
E os lábios que tudo sabem sobre a espada
Pensas que quis
Toda a brutalidade do homem
A podridão dos seus actos
Toda a alma suja e porca
Neste altar feito de esperança
Íngreme como um luar de Inverno
Quero que saibas ainda hoje que:
Vomito o chão e as suas visceras
Digo à brisa para expurgar o sal
À boca para não saber mais de si
Aos olhos para se envergonharem
Ao corpo para se desfazer nas nuvens
E ao sol que não traga consigo uma cruz
E o teu sangue que seja sempre uma flor a nascer
E a tua dor uma ave que quebre todo o céu rochoso!
manuel feliciano
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