11.09.2014

Esta manhã o teu olhar no autocarro
Era de azul poema
Tinhas dentro dele as árvores inteiras
O chão intacto
As folhas que desconhecem o sangue
As maçãs que não gemem dentro da flor
As mãos que antecedem o fogo
Era esse o encanto dos teus olhos
Enleados à minha mão
Prolongados ao meu peito
Centelha
Que faz arder a noite sem doer o beijo
A minha carne na tua
mar que não queima
Os meus lábios em silêncio
A beijarem os teus
Tão abertos que me fecharam dentro de ti
Eu dentro do teu útero
Intacto quase flor
Como as primeiras rosas que já são rosas
E ainda não nasceram
E em sua volta as andorinhas
Tinhas tudo isto
Antes de teres decido sair em S.Bento
A sorte é que eu morri contigo naquele instante
E já me sinto a abrir em ti como um grão
A crestar na tua terra
Neste suspiro de saliva
De Adão e Eva.
Manuel Feliciano

11.05.2014

Adão e Eva

Não me digas nada
Quero-te
Jardim despido
Flor
Infecundada
Lábio por lábio
E mãos incriadas


Desvive-me
De pó e Eva
E maçã trincada
Dos joelhos
À boca
Em fios de saliva
E pássaros
De língua

Entre o céu salgado
Sem estrelas
Na minha garganta

Não te prometo Deus

Porque os meus olhos
Não sólidos
Não sabem a maçã
De árvore
Errada
E Sóbria
Da qual me desveneno

Senão aos teus pés
Chão do paraíso!



manuel Feliciano




Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe

E o coração saber-te-á por inteiro



Não me abraces: diz amor amor em gestação

Depois acaricia o feto e alegra-te

Como uma flor transformada

Com a voz dentro de outra voz.




Não me beijes: Sente a tua barriga em lume

A iluminar-te sem peso

Com o teu corpo vergado

E um pouco mais de ti a estender-se

E o teu eu em outro eu.



E se por ventura chorares

É porque às vezes o choro é uma forma de sorrir profunda

E o amor é um filho dentro da boca

E o umbigo é o rio que nos enlaça



Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe

Mas não te esqueças com o mar nos lábios

Porque o amor dói como o sol em carne

O amor é morrer para seres mãe.





manuel feliciano 

10.18.2014

É neste silêncio tão de árvore
De cinza
Que os teus braços contra
o  meu peito
de nuvem mordida
de chuva
semeiam as primeiras folhas
E o teu fogo entra na raiz

E na saliva que corre
O céu é inteiro
O teu corpo quente
E as aves, que se foram
parem-me a luz
a tua brisa
E as amexas rosas dos teus lábios


O teu nome
Escorre-me pela garganta
Desagua pela tua
Cintura
vem-me o cheiro
Do teu ventre
E a tua mão a nascer na minha

Os teus cabelos
ainda florescem
E chamam as abelhas
Tenras
Às flores com que te trago
Neste silêncio.

Manuel Feliciano

9.26.2014

O meu coração é o lugar onde tu moras
Não importa se o habitas
Ou se o amas
Do meu coração vejo o mar
Nos teus olhos
E as minhas mãos nas tuas
Mesmo se não as tocas
Não importa os meus
Lábios a tocar os teus
Sob o silêncio dos céus
E a sombra do sangue das rosas
A minha boca dentro da tua
Porque tu já és o ar
E eu respiro-te
Tu também és a água
E eu bebo-te
Tu também é sol e eu acordo
Tu também és a noite
onde nas tua pálpebras azuis
Adormeço.



Manuel Feliciano

7.10.2014

Hoje não nasceu o dia
Não há pássaros no céu
nem flores na terra
nem água
O céu está de negro
Os meus olhos
o meu rosto
os meus cabelos
as minhas mãos
o meu peito
o meu corpo
uma semente na rua deserta
querendo o cheiro
e o sabor da tua boca
das tuas palavras
da tua terra
da tua primavera
sem a qual não desabrocho
não sou flor
nem árvore
no ninhos dos teus braços
as aves
as águas
que tenham vergonha
e não cantem
só chorem o teu nome
a tua memória.

Manuel Feliciano para mi querida Giovanna

6.29.2014

Reparte
porque é aí que está o canto
o sol
a chuva
e a lua
todo o mar
e a tua altura
os teus braços
o teu tronco
e a cintura
o teu rosto sobre o meu
reparte
que aí que está a vida
a erva
de verde colorida
a semente
e o amor
Deus que faz nascer
o beijo e o sabor
a vida que se prolonga
nas pálpebras ao fechar
o prazer
o feto
a flor
a noite
e o amanhecer
e o mundo que há-de vir.

Ámen

Manuel Feliciano
Quão bonito é o teu reino
o teu trono 
o teu tronco
os teus braços 
os teus cabelos
o teu rosto
o teu perfume 
as tuas palavras 
a levar-me a água
sobre o meu silvado
a brotar-me amoras
a tua boca ao amanhecer
A criar astros
do nada
na minha mão repousada
Quão bonito é o que é só teu
o que a lua desconhece
A tua cintura
luar de Agosto
a tua forma própria de abrir os olhos
de movimentar o corpo
de abrir os braços
de movimentar a brisa
de chamar o mar
de espalhar a areia
de chover na terra
de semear sementes
de erguer o sol
a tua planície, o teu todo
O teu colo!

Manuel Feliciano

6.12.2014

Os barcos e o rio que se repetem aos meus ombros neste Douro, só o teu corpo, seara que me talha o beijo, O que me traz e leva é este chão, esta planura cheia de brisa de ti. Quem me dera os teus cabelos e as tuas costas, que eu já não tenho, e tenho sempre semeados dentro de mim.
Quem me dera fosse um beijo a saber a não saber, e nessa busca húmida a cheirar a boca tenra e a ar fresco do mar, fosse um fruto inteiro por desvendar em gotículas de saliva. Quem me dera essa luz, fosse o teu rosto inteiro a não acabar junto do meu.
Eu não sei o que são barcos, porque barco só és tu, eu sou mero naufrágio ao leme das tuas mãos, o rio o teu colo profundo, a cidade inteira a vergar de luz, quando fecho os olhos ainda és tu, ervas e sementes que não morrem num verão quente, frutos que se recolhem nas flores.
Eu não consigo imaginar um cais um rio, uma cidade, um barco fora dos teus olhos, da tua boca a tocar a minha, porque um barco é sempre que as tuas mãos pousam, o mar alastra e as gaivotas voam, é sempre que os jardins mais adormecidos acordam, entre as névoas e me dão sol. Tenho sede de ti como a primavera que não traz verão, só fruto a beber na flor. A minha garganta é uma nuvem que se desfaz no perfume do teu olhar. Morro-me a cada braço de árvore que cresce, a cada fonte que jorra a sua água, como quem nasce dentro de ti, Tu és quem é tudo, nesse silêncio profundo que me dói de flor arrancada antes da primavera a arder-me , Amo-te são os únicos barcos que existem, com os olhos suspensos no movimento do teu corpo a florirem na tua boca. Tu és a água que alimenta a fundura dos rios, os jardins desabitados, em mim sei que floresces, és ninho e pássaro, mesmo se as árvores já morreram tu permaneces inteira como a primeira árvore a rasgar-me a pele, a lascar-me a boca, a agarrar-se-me ao coração sem barcos na profundidade da tua água respiro-te e pintas de verde as ervas secas dos meus lábios.

Manuel Feliciano

6.04.2014

As rosas voltam ao seu inicio

Quando passares por um velho na tua rua não lhe digas nada. Fecha os olhos e adormece. Experimenta dar-lhe a mão, vais querer supostamente que ele te mostre as ruínas de uma antiga qualquer civilização.
Mas, no mais íntimo silêncio ouvirás os pássaros experimentando as asas. Das pétalas das Rosas mais douradas pelo sol, sentirás a chuva, um fresco de boca a humedecer a terra e o sol tão mais fértil .
A minha avó tem 92 anos, do seu olhar  eu não consigo ver o fundo da rua, a altura das árvores, a largura da janela, só a planura do mar entrando em suas mãos, e as suas pernas de menina, correndo sobre a areia.
O seu olhar fita as raízes do sol que dormem em silêncio e a sua boca cheira a ninho e rosas. Agora a minha avó é uma menina nos braços de sua própria mãe desenhando rosas nos seus seios, bebendo da própria eternidade, eu não consigo ver-lhe as rugas, os seus cabelos brancos, os seus passos lentos.
A minha avó é Portugal, uma caravela inteira, o seu corpo estende-se ao mundo, é sempre que eu a sonho e sinto, não traz o tempo dentro dela, é um rio permanente que não desagua.
Tomo-lhe a mão, desço a escadas até à sua altura, o céu é o estremecer dos seus próprios olhos, como quem ainda nasce, desaperta o seu sorriso, pelo vestido da lua, e pouco a pouco as suas cicatrizes mais profundas desvanecem entre o colorido das flores e os ramos no calor da face, as rosas menstruam-se e voltam ao seu inicio.

Manuel Feliciano