As coisas mais fáceis são as que nos metem medo, as difíceis, nem pensamos nelas.
Manuel Luís Feliciano
POEMA
Vim aqui para te dizer que o teu sorriso é sublime. Dentro dele há uma luz que se liga a outras luzes! Será que nasce do perfume da chuva? Que contagia o orvalho, que dá de beber ao polén das flores, faz nascer o sol, ergue as montanhas, dá água às fontes, desce pelos rios, movimenta as ondas do mar, dá luz à luz? Será uma Deusa o teu sorriso? Um cometa? Uma nova era, uma sinagoga? Um novo acordar, uma cidade inteira, uma brisa, um anjo crescente, os navios a partirem nos lábios, as mãos abrigadas no por do sol? Que Deusa é essa o teu sorriso? O infinito? O Paraíso? O encontro? A ponte que nos liga ao paraíso. Um astrolábio para chegar a terra. As caravelas, a ilha do amor, a nudez das palavras, o sexo das rosas? O silêncio desvirginado, os índios da Amazônia?Ainda que o beba num trago de luz, e o saboreie com os lábios e a boca, em intermitências de pálpebras silvestres, o mastigue e o coma, só as tuas mãos a percorrerer-me, a incendiar-me, atravessar-me o caos e as cinzas molhadas de beijos, ruínas a erguerem-se num gemido de brisa. As ancas tépidas. Flor de estrela. Água de beijos a quebrar a Antártida. Os olhos a transbordar de amor. Novos gritos de estalagmites na garganta. Pétalas de sal. Corpos desnorteados. Saliva de cais ardente. Chaimite de guerra. Não sei que sorriso é esse? Cumpre-me bebê-lo num gole de luz.
Manuel Luís Feliciano
Hoje venho anunciar o fim do mundo
Ao olhar quente
Dos meus olhos dentro dos teus
Na brevidade da flores
Colhidas nos teus seios
Pelas minhas mãos
Mãos que entendo e não entendo
Oh céu limpo dos que voltam
Como são felizes os rostos tomando os
verdadeiros rostos
As folhas o verdadeiro lugar
Dois velhos à varanda voltando a ser crianças
Há flores a nascer dentro dos pássaros
E pássaros a nascer dentro de nós
Depois as folhas recuperam os sentidos
Nas saliva tremendo na boca
Agora sigo perfeitamente para frente
Canto-te com os meus lábios a roçar as nuvens
Que verdade absoluta
Que feridas tão caladas
Que suspiro de alegria de um cais onde só parto
Do morno do teu pescoço
Agora sei que parto e só fico na infinitude dos teus cabelos
Aperto-te mais que os braços da terra contra mim
E eis o além: O milagre de te amar.
manuel feliciano
Tenho medo de uma pedra
Ser meramente uma pedra
Sequestro
A terra pousada em silêncio
Os pardais adormecidos nas árvores
Urge a tua voz
De terra lavrada
Sementeira a abrir os poros da pele
Do impossível dos seios descobertos
O meu corpo e o teu
Envoltos em lençóis de vento
Quero locomover-te
Escrever-te o amor
Com os lábios no corpo
E no vazio
Das mãos e uma pedra
As palavras da seiva de uma árvore
Fome de já ter sido
Ramo a rebentar num barco
Flor
Pubis regada
Fruto a arder nos lábios
Grito de giestas e animais
O teu vestido a quebrar as ondas do mar
O eco
O estremecer da terra
Luz dentro e fora
Fora e dentro
Nos lábios que se abrem
E fecham a latejar
Pedra líquida a desfazer-se
Umbigo
Ancas em flor
Saliva, noite quente
Noite fria
Fundura
Alimento
Buraco negro
Big bang
As nossas almas
Vagabundas
Já fora do espaço
Circundante
Cadeia alimentar
De libelinhas de azul
Animais e seres libertos
Não mais mortos
Criação.
Manuel Luís Feliciano
Poema
O teu olhar é magia,
Respiração
Início de flores
Ventre
Amoras silvestres,
Mãos que afagam,
Coração que inebria
Beijo
Luar,
Fogueira
Cintura
Vereda
que aquece
De mãos
A abrir o sol
A promessa
O escuro
A fome
Abraço
Corpo de seda
Nús
Crianças sem nada
Semeia
O teu beijo
Casa
Lume
Fios de amor
Saliva
Terra que transpira
Semente
Choro
Barco
Na voz
E garganta
que enrouquece
Luz
Aroma
Névoa
Primavera
Bicada de pássaro
Inocência
Flor molhada
Despropriação
Sou-te
Primeira
Árvore
Solo
Homem
Formiga
Choro
Calor
Frio
Ao teu vento
Inverno
Rastro de estrela
Passagem
Apropria-me
Ininterrupto
Nasço-te.
Manuel Luís Feliciano
Hoje
Quero levantar-me
Andar pelo chão
E se vir na terra
O chão plantado de folhas
As vozes em silêncio
Eu a olhar para ti
Tu a olhares para mim
Em segredo
Num bulício de cores
E o que dissermos um ao outro
For o céu profundo
Quase a chover
Promessa de um fogo
É o Outono
Manuel Luís Feliciano
POEMA
Vim aqui para te dizer que o teu sorriso é sublime. Dentro dele há uma luz que se liga a outras luzes! Será que nasce do perfume da chuva? Que contagia o orvalho que dá de beber ao polén das flores, faz nascer o sol, ergue as montanhas, dá de beber às fontes, desce pelos rios, movimenta as ondas do mar, dá luz à luz? Será uma Deusa o teu sorriso? Um cometa? Uma nova era, uma sinagoga? Um novo acordar, uma cidade inteira, uma brisa, um anjo crescente, os navios a partirem nos lábios, as mãos abrigadas no por do sol? Que Deusa é essa o teu sorriso? O infinito? O Paraíso? O encontro? A ponte que nos liga ao paraíso. Um astrolábio para chegar a terra. As caravelas, a ilha do amor, a nudez das palavras, o sexo das rosas? O silêncio desvirginado, os índios da Amazônia?Ainda que o beba num trago de luz, e o saboreie com os lábios e a boca, em intermitências de pálpebras silvestres, o mastigue e o coma, só as tuas mãos a percorrerer-me, a incendiar-me, atravessar-me o caos e as cinzas molhadas de beijos, ruínas a erguerem-se num gemido de brisa. As ancas tépidas. Flor de estrela. Água a bilhar a quebrar a Antártida. Os olhos a transbordar de amor. Novos gritos de estalagmites na garganta. Pétalas de sal. Corpos desnorteados. Saliva de cais ardente. Chaimite de guerra. Não sei que sorriso é esse? Cumpre-me bebê-lo num gole de luz.
Manuel Luís Feliciano
Poema
Santa Cruz do Douro
Pousado no teu vestido
De Monte lavrado
Do teu olhar à flor do rio
Dos teus lábios ao pecado
Percorro-te
Na falésia de um grito
Seios de pinhas
Pele de rosmaninho
Eu quero o teu beijo de rio
A molhar-te o mar
Que me salve
Da escuridão
E da morte
O teu corpo de Douro em fruto
Ruína que estremece
Entre as tuas mãos e o infinito
O céu tão alto
O mar tão fundo
Os teus lábios em oração
São Deus
A fermentar o amor
O sol a gemer de frio
A nascer-te
Uma ponte de ternura!
Manuel Luís Feliciano