Um homem entre as coisas da vida
De coração ora leve
De coração ora pesado
Tem tanto de pecado seu
Como o mundo de pecado
Manuel Luís Feliciano
Sonho o dia
Em que eu seja leve e inteiro
E que o facto de ser
De andar
Agir
E de observar o mundo
Seja já um poema
Sem nenhum peso
Pesa-me pensar o mundo
E não saber o que é o mundo
De ser animal
Que tenta matar as frases
De sol de cardos
Que afligem
para seguir em frente
Frágil e inconstante
Dor de cada dor
De não puder dar luz aos teus olhos
De madre pérola
Lágrima de cada lágrima
Ilógico e irracional
Da natureza da brisa
Que não se ocupa em ficar fechada
Porque é na alma que a carne dói
Que a razão se dissolve num sorriso
Ou grito
Nada é mais lógico que o mar a gemer nas pedras
Que uma nuvem inteira a desfazer-se em chuva.
Manuel Luís Feliciano
Cala-te ó insidiosa besta da guerra...
Nem Marte te aplaude o decadente amor
Nem a justeza com que se adorna Minerva
Nem o jardim que te cobre as verdades podres...
Cala-te ó besta pequena, ó endeusado ego
Com que matas mulheres, crianças e o mundo
Cala-te ó dono, nem de ti mesmo
Estrume o teu coração, onde nem sangue jorra
Cobiça no pó dos teus ossos a maldita terra
E deixa a quem ama de verdade a paz viver.
Manuel Luís Feliciano
Enquanto eu
não perceber que sou
a única estrada
as flores
os rios e os mares
os labirintos das rosas
e os navios
todos os outros não me levarão
a lugar algum
É preciso que tudo comece de dentro
para fora
que todos os pássaros sejam transportados
para dentro
para não ser prisioneiro
dos lugares mais livres do mundo
das portas mais escancaradas para o mar
e ainda que livre
cada flor da madrugada
não seja o ferro de uma prisão
Manuel Luis Feliciano