4.23.2021

 Esta noite


Encosto o meu colo


Ao teu colo


E deixo que as tuas mãos


Me conduzam a um país


Muros de outros muros


Línguas de outros mares


Amor - Terra sem fronteiras


Soluço


Frémito  de água


Tremura


Casa de luar



Nos teus olhos o além


Os muros caídos


O rasgar de asas


O meu peito no teu


A minha boca na tua


Planalto


Rua sem clausura



Encontro


País de outras rosas


Fogo de ternura


A terra a quebrar-se


Na tua cintura


Respiras


Voas


Abres


Floresces


Onde dizem que é a noite


É a tua mão quente


O mar do teu sangue


A eclodir na semente


País


Terra de outra terra


Azul de outro céu


Rua de outro espaço


Entre o teu corpo e o meu


A altitude das aves


O aroma do céu.


Manuel Luís Feliciano

4.08.2021

Um dia quero nascer

E não precisar de palavra alguma

Sorriso

Afecto

Ou verso

Que me adormeça

Ser como um rio 

Que articula as águas

Sem cansar o pensamento

De nenhum olhar que me justifique

Só o bulício da águas

A bater nas pedras

Ser um lugar onde não me encontrem

Sou uma flor fora de todos os tempo

E não encontrei o verdadeiro lugar

Sou a desordem

O caos do universo

A distopia da perfeição

Dentro de mim há arvores

Mas não me perguntem o nome delas

Sou o lugar onde jardins tardios

Entreabrem a selva

Quero morrer desonradamente

Enterrado de preferência ao lado de um cão

Não sei olhar para o fora das coisas

Dentro de mim 

Uma escuridão enorme

De um luar de Deusas

Que ao menos depois seja uma pedra tosca

Onde ninguém se assente

Que ninguém me chore 

Ou se lembrem de mim

Só a leveza das folhas a explorar-me

O choro do sol a nascer em mim.



Manuel Luís Feliciano


4.02.2021

Põe-se o rio

Põe-se o mar

Põe-se a abelha numa flor

E a minha boca de dor

Aberta na tua mão

Flor que o vento  leva

No entardecer do teu beijo

O sol não se põe

Nem o teu ar

Nem o teu rubor

Nem o teu naufrágio

E eu vou contigo pelo chão

Por um caminho cortado

Num soluçar ancorado

Ouço o teu coração

Como uma pomba num seio

A morte a dizer que não

Por detrás do teu olhar

O dia é claro e inteiro.


Manuel Luís Feliciano

4.01.2021

Ó meu amor, minha amada

Tu és flor de laranjeira

Por ti meus lábios em brasa

Percorrem a tua ladeira


Sigo silente na tua encosta

Sou como a sombra de um rio

E o meu braço luar que gosta

Do teu respirar tão macio


Os teus cabelos ao vento

Tiram-me o frio e a escuridão

Do teu beijo a contrair a terra


A tua pele é amor e perdão

Nas balas do pensamento

Os teus lábios põe fim à guerra.


Manue Luís Feliciano

1.15.2021

As coisas mais fáceis são as que nos metem medo, as difíceis, nem pensamos nelas.


Manuel Luís Feliciano

12.25.2020

 POEMA


Vim aqui para te dizer que o teu sorriso é sublime. Dentro dele há uma luz que se liga a outras luzes! Será que  nasce do perfume da chuva? Que contagia o orvalho, que dá de beber ao polén das flores, faz nascer o sol, ergue as montanhas, dá água às fontes, desce pelos rios, movimenta as ondas do mar, dá luz à  luz? Será uma Deusa o teu sorriso? Um cometa? Uma nova era, uma sinagoga? Um novo acordar, uma cidade inteira, uma brisa, um anjo crescente, os navios a partirem nos lábios, as mãos abrigadas no por do sol? Que Deusa é essa o teu sorriso? O infinito? O Paraíso? O encontro? A ponte que nos liga ao paraíso. Um astrolábio para chegar a terra.  As caravelas, a ilha do amor, a nudez das palavras, o sexo das rosas? O silêncio desvirginado, os índios da Amazônia?Ainda que o beba num trago de luz, e o saboreie com os lábios e a boca, em intermitências de pálpebras silvestres, o mastigue e o coma, só as tuas mãos a percorrerer-me, a incendiar-me, atravessar-me o caos e as cinzas molhadas de beijos, ruínas a erguerem-se num gemido de brisa. As ancas tépidas. Flor de estrela. Água  de beijos a quebrar a Antártida. Os olhos a transbordar de amor. Novos gritos de estalagmites na garganta. Pétalas de sal. Corpos desnorteados. Saliva de cais ardente. Chaimite de guerra. Não sei que sorriso é esse? Cumpre-me bebê-lo num gole de luz.


Manuel Luís Feliciano

11.27.2020

 Hoje venho anunciar o fim do mundo

Ao olhar quente

Dos meus olhos dentro dos teus

Na brevidade da flores

Colhidas nos teus seios

Pelas minhas mãos

Mãos que entendo e não entendo

Oh céu limpo dos que voltam

Como são felizes os rostos tomando os 

verdadeiros rostos

As folhas o verdadeiro lugar

Dois velhos à varanda voltando a ser crianças

Há flores a nascer dentro dos pássaros

E pássaros a nascer dentro de nós

Depois as folhas recuperam os sentidos

Nas saliva tremendo na boca

Agora sigo perfeitamente para frente

Canto-te com os meus lábios a roçar as nuvens

Que verdade absoluta

Que feridas tão caladas

Que suspiro de alegria de um cais onde só parto

Do morno do teu pescoço

Agora sei que parto e só fico na infinitude dos teus cabelos

Aperto-te mais que os braços da terra contra mim

E eis o além: O milagre de te amar.


manuel feliciano

11.11.2020

 Tenho medo de uma pedra

Ser meramente uma pedra

Sequestro

A terra pousada em silêncio

Os pardais adormecidos nas árvores

Urge a tua voz

De terra lavrada

Sementeira a abrir os poros da pele

Do impossível dos seios descobertos

O meu corpo e o teu 

Envoltos em lençóis de vento

Quero locomover-te

Escrever-te o amor

Com os lábios no corpo

E no vazio

Das mãos e uma pedra

As palavras da seiva de uma árvore

Fome de já ter sido

Ramo a rebentar num barco

Flor

Pubis regada

Fruto a arder nos lábios

Grito de giestas e animais

O teu vestido a quebrar as ondas do mar

O eco

O estremecer da terra

Luz dentro e fora

Fora e dentro

Nos lábios que se abrem

E fecham a latejar

Pedra líquida a desfazer-se

Umbigo

Ancas em flor

Saliva, noite quente

Noite fria

Fundura

Alimento

Buraco negro

Big bang

As nossas almas

Vagabundas

Já fora do espaço

Circundante

Cadeia alimentar 

De libelinhas de azul

Animais  e seres libertos

Não mais mortos

Criação.


Manuel Luís Feliciano

11.05.2020

 Poema



Poema


Era em ti que existia o impossível

A profundidade do mar

O vazio do céu

Ainda eram possíveis

Mas o calor das tuas mãos

Os teus lábios a tocarem nos meus

É que era definitivamente o impossível

Um fogo permanente

Um lugar seguro

O fim do mundo

Uma rua sem direção.


Manuel Luís Feliciano

Poema

Poema


O teu olhar é magia, 

Respiração 

Início de flores

Ventre

Amoras silvestres, 

Mãos que afagam,

Coração que inebria

 Beijo 

 Luar, 

 Fogueira 

Cintura

Vereda

que aquece

De mãos 

A abrir o sol

A promessa

O escuro

A fome

Abraço 

Corpo de seda

Nús

Crianças sem nada

Semeia

O teu beijo

Casa

Lume

Fios de amor 

Saliva

Terra que transpira

Semente

Choro

Barco

Na voz

E garganta

que enrouquece

Luz

Aroma

Névoa

Primavera

Bicada de pássaro

Inocência

Flor molhada

Despropriação

Sou-te

Primeira

Árvore

Solo

Homem

Formiga

Choro

Calor

Frio

Ao teu vento

Inverno

Rastro de estrela

Passagem

Apropria-me

Ininterrupto

Nasço-te.

Manuel Luís Feliciano