3.16.2022

 Sonho o dia 

Em que dentro de mim

As casas

Não tenham paredes.


Manuel Luís Feliciano

 Ainda não sei viver dentro das cousas

Como se vivera fora delas.


Eu...

Poeta desconhecido

Manuel Luís Feliciano



Sol

 O sol afinal 

A luz que não teme

A fera do cálculo 

O brilho da espada 

As mãos acorrentadas

A porta

Escancarada do teu rosto

A silhueta

Do movimento do beijo

A verdade

Do fogo

A afogar-se no mar

A saliva de uma manhã

Sobre uma flor

O que resta 

Dos ombros em brasa

A voz que ainda arde

As tuas pálpebras entrecolhidas 

A dissolução do escuro 

O crepúsculo do bulício dos lábios

 da sombra de um barco no mar.


Manuel Luís Feliciano

2.22.2022

 Não é que dentro do meu corpo

Por vezes não está lá ninguém 

Porque o que está dentro do corpo

Não é do corpo também...


Eu...

Poeta desconhecido


Manuel Luís Feliciano

 Eu queria pensar nas cousas

Mas sem nas cousas pensar

Porque a verdade das cousas 

A mim, me faz magoar.


Eu...

Poeta desconhecido

 Eu queria ir dentro das cousas

Sem nas cousas me afundar

Porque dentro de cada cousa

Há uma braçada de mar.


Eu...


Poeta desconhecido.


 De poeta nada tenho

nem coisa que se pareça

Foi a irrealidade do voo

que me subiu à cabeça


nunca gostei de escrever

e de pensar também não

as alegrias do mundo

nas tábuas de um caixão


de que importa o senhor céu

de que importa a senhora lua

de que importa um rico ao léu

E uma Princesa  pela rua


O céu tem forma de redondo

se for quadrado também está bem

na horrenda natureza

morre o sol e morre a lua

e com eles morro também.

Eu...

Poeta desconhecido

7.25.2021

 Porque sei

Que não sou mais importante

Que uma erva ou flor

Que um animal que chora

A liberdade e a dor

De um grito em desespero

De não ser pleno

Também eu quero morrer

Com a mesma alegria

Do romper da flor.


Manuel Luís Feliciano

 Quero sair daqui, daqui, daqui

Já faz muito tempo

A primavera florir

O gelo a quebrar-se

Das nuvens do céu

A chuva a fluir

Na sombra apressada

Aqui não é tudo

Aqui não é nada

Daqui quero o vento

A risada do mar

A água que galga

Do tempo nem uma folha no chão

Nem o espelho da cara

A abrir memória

O encontro de nada.


Manuel Luís Feliciano

7.01.2021

 A liberdade

É uma palavra inútil

No seu significado

E o que é útil

É a forma como cada qual a transfigura

Os pedaços de um rio férreo

Em rosa

Água 

Ou barco

No jardim da memória

Que vamos colocando com as mãos

Num lugar

Onde nem nós mesmos o conhecemos

E desfigurando o óbvio

Enfrentando com loucura o mundo

A que estamos presos

viajamos

Rasgamos essa palavra

Que não vale de nada

Se não houver o sonho

A força

A embriaguez do amor

Um espaço interior

Onde caminhamos sem as mãos presas

A coragem contra urgência do mundo 

Para acendermos a luz no corredor de uma manhã

Contra a própria cegueira

O propósito do caminho no incerto

De uma flor a dar-te a mão

Por entre o nevoeiro.


Manuel Luís Feliciano