Sonho o dia
Em que dentro de mim
As casas
Não tenham paredes.
Manuel Luís Feliciano
O sol afinal
A luz que não teme
A fera do cálculo
O brilho da espada
As mãos acorrentadas
A porta
Escancarada do teu rosto
A silhueta
Do movimento do beijo
A verdade
Do fogo
A afogar-se no mar
A saliva de uma manhã
Sobre uma flor
O que resta
Dos ombros em brasa
A voz que ainda arde
As tuas pálpebras entrecolhidas
A dissolução do escuro
O crepúsculo do bulício dos lábios
da sombra de um barco no mar.
Manuel Luís Feliciano
De poeta nada tenho
nem coisa que se pareça
Foi a irrealidade do voo
que me subiu à cabeça
nunca gostei de escrever
e de pensar também não
as alegrias do mundo
nas tábuas de um caixão
de que importa o senhor céu
de que importa a senhora lua
de que importa um rico ao léu
E uma Princesa pela rua
O céu tem forma de redondo
se for quadrado também está bem
na horrenda natureza
morre o sol e morre a lua
e com eles morro também.
Eu...
Poeta desconhecido
Quero sair daqui, daqui, daqui
Já faz muito tempo
A primavera florir
O gelo a quebrar-se
Das nuvens do céu
A chuva a fluir
Na sombra apressada
Aqui não é tudo
Aqui não é nada
Daqui quero o vento
A risada do mar
A água que galga
Do tempo nem uma folha no chão
Nem o espelho da cara
A abrir memória
O encontro de nada.
Manuel Luís Feliciano
A liberdade
É uma palavra inútil
No seu significado
E o que é útil
É a forma como cada qual a transfigura
Os pedaços de um rio férreo
Em rosa
Água
Ou barco
No jardim da memória
Que vamos colocando com as mãos
Num lugar
Onde nem nós mesmos o conhecemos
E desfigurando o óbvio
Enfrentando com loucura o mundo
A que estamos presos
viajamos
Rasgamos essa palavra
Que não vale de nada
Se não houver o sonho
A força
A embriaguez do amor
Um espaço interior
Onde caminhamos sem as mãos presas
A coragem contra urgência do mundo
Para acendermos a luz no corredor de uma manhã
Contra a própria cegueira
O propósito do caminho no incerto
De uma flor a dar-te a mão
Por entre o nevoeiro.
Manuel Luís Feliciano