Se vires uma flor não a cortes
Aprecia-a
Dá-lhe um beijo
Sem a tocares
E depois despede-te
Sê grato
Não a leves contigo
Senão no coração
Não olhes para trás
Não faças mal a ti mesmo
Nem à flor.
Manuel Luís Feliciano
O Outro
Eu mesmo
Espelho meu
E dos outros
Fantasma?
Consciência de tudo
E de nada
Ah como eu queria fumar um cigarro
De tragos a crepúsculos
Como era bom esquecer
Que ao lado direito do banco
O pendura me acompanha
Fuga do caminho
Medo existir ?
Eu só queria
Que se eu pudesse escolher
Escolheria
Ser bom e honesto
Ser claro como as águas
Não dar dano às flores
Às ervas
E aos animais
E agora vou chorar...
Como me doi os olhos dos gatos
E os cães chagados.
E esse peso de que eles sou eu.
Manuel Luís Feliciano
Para a Deusa do Universo
Amo o teu sussurro
Como o raiar do sol
Porque o teu sussurro é leve
Transparente
Um caminho inteiro
Onde bebo das tuas flores
A vaga das andorinhas
Sem o amanhã
Os dias que findam
Entre os teus olhos
Densos de amor e luz
Há pétalas caídas
A retomarem a flor
E as nossas bocas embarcações
De novos mundos .
Para a minha querida e doce Deusa
Rubiana Silva
A Isabel tem um cheirinho a Jasmins
Da frescura de aromas naturais
De sussurros dos anjos e querubins
De azuis de beijos a quebrar os areais.
Manuel Luís Feliciano
Procuro a razão nas coisas
Nas coisas que razão não têm
E ao tentar ir à razão das coisas
As coisas perdem-se também
O sol diz tudo
O tudo que nada tem
Mas há sempre algo do nada
E o nada é algo também
Contento-me com o sol e o frio
Das raízes das árvores, só vislumbro as
folhas, e a sombra num dia de sol
Bastam-me as palavras sem significado
Aquelas que são belas sem terem razão
Para serem belas, as coisas sem serem
Coisas algumas.
Manuel Luís Feliciano
Sonho o dia
Em que eu seja leve e inteiro
E que o facto de ser
De andar
Agir
E de observar o mundo
Seja já um poema
Sem nenhum peso
Pesa-me pensar o mundo
E não saber o que é o mundo
De ser animal
Que tenta matar as frases
De sol de cardos
Que afligem
para seguir em frente
Frágil e inconstante
Dor de cada dor
De não puder dar luz aos teus olhos
De madre pérola
Lágrima de cada lágrima
Ilógico e irracional
Da natureza da brisa
Que não se ocupa em ficar fechada
Porque é na alma que a carne dói
Que a razão se dissolve num sorriso
Ou grito
Nada é mais lógico que o mar a gemer nas pedras
Que uma nuvem inteira a desfazer-se em chuva.
Manuel Luís Feliciano