Eu queria ir dentro das cousas
Sem nas cousas me afundar
Porque dentro de cada cousa
Há uma braçada de mar.
Eu...
Poeta desconhecido.
De poeta nada tenho
nem coisa que se pareça
Foi a irrealidade do voo
que me subiu à cabeça
nunca gostei de escrever
e de pensar também não
as alegrias do mundo
nas tábuas de um caixão
de que importa o senhor céu
de que importa a senhora lua
de que importa um rico ao léu
E uma Princesa pela rua
O céu tem forma de redondo
se for quadrado também está bem
na horrenda natureza
morre o sol e morre a lua
e com eles morro também.
Eu...
Poeta desconhecido
Quero sair daqui, daqui, daqui
Já faz muito tempo
A primavera florir
O gelo a quebrar-se
Das nuvens do céu
A chuva a fluir
Na sombra apressada
Aqui não é tudo
Aqui não é nada
Daqui quero o vento
A risada do mar
A água que galga
Do tempo nem uma folha no chão
Nem o espelho da cara
A abrir memória
O encontro de nada.
Manuel Luís Feliciano
A liberdade
É uma palavra inútil
No seu significado
E o que é útil
É a forma como cada qual a transfigura
Os pedaços de um rio férreo
Em rosa
Água
Ou barco
No jardim da memória
Que vamos colocando com as mãos
Num lugar
Onde nem nós mesmos o conhecemos
E desfigurando o óbvio
Enfrentando com loucura o mundo
A que estamos presos
viajamos
Rasgamos essa palavra
Que não vale de nada
Se não houver o sonho
A força
A embriaguez do amor
Um espaço interior
Onde caminhamos sem as mãos presas
A coragem contra urgência do mundo
Para acendermos a luz no corredor de uma manhã
Contra a própria cegueira
O propósito do caminho no incerto
De uma flor a dar-te a mão
Por entre o nevoeiro.
Manuel Luís Feliciano
Um grão semeado na terra
Talvez seja o que me falte
Ou não...
Nada é simples e claro
A nitidez é uma forma de nuvem
Se admitirmos que o grão precisa da terra
Para germinar a planta
E a planta gerar o grão
Mas o que pode o grão
Ante o alimento da terra?
Talvez precise de se cumprir
E de se deixar viver
Sem qualquer tipo de entendimento
Sem nenhuma obrigação
E compreensão bíblica
É por isso que os pássaros
Erguem a escassez de luz
Em todos os corações humanos
Migram
Deixam-se ir obedientes
À força da natureza
Morrem
E voltam
Todas as primaveras
Ante toda a falência do céu
À sua volta...
Manuel Luís Feliciano
Não sou pessoa
sou natureza
Quem me dera ser
Primavera no inverno
E chuva fresca num verão
Se em mim
Estivesse o segredo de transitar a luz
De saber viver o equinócio
E esperar a lentidão da luz
Mas não...
As sombras apoderam-se de mim
Talvez não querer aprender
Ou fingir de que não sei aprender
Ou não me implicar completamente com as coisas
É um estádio de consciência
De fugir das sombras
Tudo nasce da Inutilidade do grito
É não querer ser maior
Que a própria pequenez
Da mecânica do universo
É um processo de fuga
É a fadiga das mesmas linhas férreas
Dos mesmos horários e combóios
É não saber ter uma vida paralela
Ao fantasma do mundo
É não saber sequer
Aqui e acolá colher flores
Sem as arrancar demasiadamente.
Manuel Luís Feliciano
A beleza dela, é a própria transcendência dela, eu amo-a, pode ser uma ideia, ou conceito de amor, olhar para ela, e ver que ela é a própria natureza, à sua aproximação, eu sinto a falésia onde vislumbro o mar, a beleza da areia, a rebentação das ondas, nasce-me a inquietação, o perfume do sal, a distância do céu, que por estar mais perto não deixa de estar mais longe, que por ser tão real, não deixa de ser irreal, que por ser física não deixa de ser metafísica, porque eu sei que por dentro das suas pálpebras, há outros mundos e dinâmicas do amanhecer e anoitecer, talvez eu tenha medo do infinito, e me arrepie à luz de um sorriso, quando olho para ti na verdade eu morro. Até o franzir dos teus olhos têm Outonos, e o desfolhar de amanheceres, hoje sei que o medo de pousar os meus olhos nos teus, é de saber que a natureza me vive, e eu realmente não a vivo, porque tenho medo de pensar que sou imaterial, sou da natureza do sonho como a natureza, ainda não aprendi a ser real, a pousar os pés no chão e seguir em frente, ainda não sei morrer completamente ao teu beijo, sei que és uma criação de Deus e a tua pele, transcende todo o meu conhecimento, perante ti, sinto-me um mendigo, sou saliva do teu beijo, idioma do teu fogo, queria saber arder na frescura do teu aroma, ser terra da tua terra, em mim um cabelo teu pode ser um rio, uma árvore, o voar de um pássaro, queria saber não me magoar ao relâmpago da tua voz. Tu és a fome que eu tenho de Deus, a incerteza de um poema, num mundo demasiado certo, eu vivo na imaterialidade de dois mundos, quando te beijo não sinto a carne, somente o belo de um navio atravessar o azul, sinto o cosmos a arder em mim, não tenho a percepção das formas, só um grito de azul e de lágrima. Ainda não sei lidar com palavras pequenas e sentimentos pequenos, tudo em mim ganha altura, magoo-me ao amor mecânico das fábricas, a todas as obrigações sociais, a todos os gestos repetitivos, a angústia de não saber vestir outros que não seja eu mesmo, ainda não tenho a pequenez de ser uma ou mais pessoas, por enquanto só sou um desconhecido à procura nem eu mesmo sei de que.
Manuel Luís Feliciano
Sinto vontade de te levar pela rua
desfrutar do calor da tua mão
Que cheira a primavera
sei que a tua mão me liga à tua árvore
mas como eu preso a liberdade
eu quero que o meu amor por ti
te liberte os ramos
porque sei que cada coisa
É única em si mesma
E morre quando a aprisionamos
O que eu mais quero
é que caminhes
sem sentires o peso dos teus pés
Numa estrada óbvia
porque tu tens vida e amor dentro do amor
E o teu amor é mais intenso
quando ardo dentro de ti
e te liberto a mão
Há todo um caminho desconhecido
Dentro de ti
sei que és uma luz
como todas as luzes
não precisas das mãos que te prendam
senão dos olhos
Que te deixem partir pelas tuas ruas.
Manuel Luís Feliciano