Metamorfose
Greta
Era de ti o beijo
Do bicho da seda
À borboleta
Em movimentos lentos
Os teus braços velas
Nas ondas do corpo
Cada carícia
Da língua ao pescoço
Asas
Voo
Cativeiro de flores
Gemido
A descer-te pelos ombros
À velocidade do fogo
A reparar-te as ruínas
Dos seios
Pétalas por pétalas
Do verão
À primavera
A luz
A chamar-te
O movimento das ancas
Inóxidadas
A raíz
À regressar à semente
Ao sémen
À púbis
No veludo da carne
Rio estendido
Intermitência
Entre o antes e o depois
O sono
Quarto aberto
O tempo a lamber os frutos
Um Deus na tua carne
A minha boca a gemer-te
Do sumo para a laranja
Da laranja para o arco-íris
Fora do sistema
Na saliva que corta o fogo
Do fogo que ateia a saliva
O limbo
Frémito de ternura
Nas tuas costas
Pernoitadas por dedos aflitos
Insecto que ao beber da flor
É mar a deitar-se no sol
Eixo ininterrupto
Da casa para o trabalho
Da luz que mata a escuridão
E não estorva
No teu corpo labirinto
(In)hóstil
Inteligível
Jardim
Dos cabelos que não emergem
Na brisa
Os nossos lábios
Lenha inconsumível
Cratera
Infinitude
A fechar-me
A abrir-te
A nascer-me
Intocada
Útil
Vai e vem
Regresso a casa.
Manuel Luís Feliciano
7.13.2019
7.12.2019
Júlio Cortazar- A Auto-estrada do sul
Em Fontainebleau
Corrente de fogo
Flor na auto-estrada
A rapariga do Dauphine
Na saia do tempo
Corpo a perder de vista
Alimentou as rosas
A inocência
O Jardim
Deu de Beber à noite
E à manhã
Desmanchou no travessão
A cólera
Nos seus braços lânguidos
Fronteira
E além
Amadureceu o frio
Arrefeceu o sol
Perfilhou os ocupantes
Do trânsito parado
Encontro da tribo
Da minha boca e a tua
Borboleta desamparada
No pára-brisas
Relógio sem ponteiros
Soluço da brisa
Acidente
Espasmo das nuvens
A compaixão das rosas
As tuas mãos as de todos
A salvação
Do meu olhar e o teu
Acorrentados
Rectrovisores
De longo alcance
Todos connosco
Em caravana
A ilusão do voo
Nas tuas ancas
Ciclo do fogo
Olhar de anjo
Filho a nascer
Esperança
Terra prometida
De mãos dadas em direção ao sul
Sonho do amor
miragem
Espuma de alfazema
Água quente
Pelo peito e pernas
E o vinho
A fermentar o amor
Sobrevivemos à sede
Paris
Nos teus seios límpidos
Conheço-te
Ao arranque dos carros
Que se perdem
Avançam
Sem olhar para trás
O ciclo das asas
A fragmentação dos corpos
Desconhecidos
Cada rosa por si
As silvas dos lábios
Que ainda querem os meus
Inflamados
O meu olhar e o teu
Desacorrentam-se
Do mundo inteiro
Utopia
Adormeço nos teus cabelos
Levo-te por dentro
Flor de gasolina
Cano de Escape
Sonho
Peregrinação
Alegria de chegar
Desencontro.
Manuel Luís Feliciano
7.08.2019
Jesus Cristo
Porque te deixaram morrer
A voz abrindo-se na folhagem das pedras
As palavras nos ouvidos dourados das areias
O coração sempre do mesmo lado
O pregos no lugar dos dedos
As andorinhas piando na boca
O amor - mãe em carne viva
o meu coração não tem lugar para o teu fim
Pensas que faço uma vénia à múmia do mundo?
Clamo-te - E não te ouço
Num sorriso edificado
As tuas pernas sem mais mar
Uma árvore despida - Barco do teu dorso
Sem as moedas de César
Só espada que nada sabe da ternura
Os lábios que tudo sabem sobre a espada
Que Deus é esse que te mata de amor?
peco
Como eu peco meu Deus
no mais sujo de mim
há uma flor branca
E os teus pés lugar para eu chorar
Os cabelos de Madalena
doendo-me no pescoço
Nenhum Deus merece a tua morte
nem a tua palavra
nem o teu rosto
Só amoras nessa ferida tão tenra
na crusta dos olhos
Só os teus pés cansados da terra
A aliviarem-me - os lábios da ceia
de Crianças em eiras de milho
Dobando o mar em corações de papoilas
No beiral dos pássaros
uma árvore à espera da porta da tua mão
Que entre por esta boca tão pouca!
Manuel Luís Feliciano
As palavras nos ouvidos dourados das areias
O coração sempre do mesmo lado
O pregos no lugar dos dedos
As andorinhas piando na boca
O amor - mãe em carne viva
o meu coração não tem lugar para o teu fim
Pensas que faço uma vénia à múmia do mundo?
Clamo-te - E não te ouço
Num sorriso edificado
As tuas pernas sem mais mar
Uma árvore despida - Barco do teu dorso
Sem as moedas de César
Só espada que nada sabe da ternura
Os lábios que tudo sabem sobre a espada
Que Deus é esse que te mata de amor?
peco
Como eu peco meu Deus
no mais sujo de mim
há uma flor branca
E os teus pés lugar para eu chorar
Os cabelos de Madalena
doendo-me no pescoço
Nenhum Deus merece a tua morte
nem a tua palavra
nem o teu rosto
Só amoras nessa ferida tão tenra
na crusta dos olhos
Só os teus pés cansados da terra
A aliviarem-me - os lábios da ceia
de Crianças em eiras de milho
Dobando o mar em corações de papoilas
No beiral dos pássaros
uma árvore à espera da porta da tua mão
Que entre por esta boca tão pouca!
Manuel Luís Feliciano
Entre a sombra e o homem
Entre o homem e a sombra
Quero a tua mão fresca de fruto
Que me tire daqui
Das areias finas
Do teu corpo escaldante
A terra
Deserto
A música da tua saliva
Só a rosa da tua boca
Beijar-te a púbis
Ser rio
Decompõe as palavras
O grito das flores
A beijar o verão
O sol que não chora
As ruas em betão
Os frutos a gritar o Outono
O aroma das tuas pernas
Salva-me
Sabes a mel
Criação da água
Beijo
Desmoldura
Pele fresca da chuva
Abraço-te
Decompõe-me a noite
Decompõe-me o dia
As ideias que cegam
O princípio
E o fim
As frases que estão presas
E os teus seios o jardim
Liberdade
Veredas sem caminho
As palavras que correm
No estalar do amor
Voz do poema da tua boca
Abrigo
Sem lugar.
Manuel Luís Feliciano
Entre o homem e a sombra
Quero a tua mão fresca de fruto
Que me tire daqui
Das areias finas
Do teu corpo escaldante
A terra
Deserto
A música da tua saliva
Só a rosa da tua boca
Beijar-te a púbis
Ser rio
Decompõe as palavras
O grito das flores
A beijar o verão
O sol que não chora
As ruas em betão
Os frutos a gritar o Outono
O aroma das tuas pernas
Salva-me
Sabes a mel
Criação da água
Beijo
Desmoldura
Pele fresca da chuva
Abraço-te
Decompõe-me a noite
Decompõe-me o dia
As ideias que cegam
O princípio
E o fim
As frases que estão presas
E os teus seios o jardim
Liberdade
Veredas sem caminho
As palavras que correm
No estalar do amor
Voz do poema da tua boca
Abrigo
Sem lugar.
Manuel Luís Feliciano
7.03.2019
Portugal - Mercado negro
Portugal
País do mercado negro
Tudo é vendável
Vende-se as leis
A constituição
Os direitos
Até a compaixão
Se tens dinheiro
Há leite que escorre pelos seios
Se não tens dinheiro
Já não és cidadão
És moço cangalheiro
Se te chegas à frente
Jogas o pião
Se não te podes chegar
Cai a noite
Sobre o teu lar
Ficam os barcos a cantar
Com a ferrugem
Ao luar
E a guerra no coração.
Manuel Luís Feliciano
País do mercado negro
Tudo é vendável
Vende-se as leis
A constituição
Os direitos
Até a compaixão
Se tens dinheiro
Há leite que escorre pelos seios
Se não tens dinheiro
Já não és cidadão
És moço cangalheiro
Se te chegas à frente
Jogas o pião
Se não te podes chegar
Cai a noite
Sobre o teu lar
Ficam os barcos a cantar
Com a ferrugem
Ao luar
E a guerra no coração.
Manuel Luís Feliciano
Portugal - Desrespeita as pessoas na precariedade e doença
As tuas leis
São de um fado
Que não tem reis
Só bóis e um arado
E cornos da paciência
Do homem
Que morre à míngua
Do mendigo que dorme na rua
Do homem acidentado
À volta da nora
À volta da nora
Desamparado e entregue a si
A comer de um pai que já não tem
Ao qual o Estado te obriga
Do pouco que te podem dar
Porque o Estado fugiu
Está na puta que o pariu
Não cumpre a santidade
Nem a lei da Constituição
E cede à corrupção
Ó flor da economia!
Somos todos portugueses
O povo come da pia
O mediano fica sem nada
Coitado do inválido
Do homem que adoeceu
Não tem direito morreu
Contra esta máquina que mata
Estado dos nossos impostos
Do diabo do dinheiro
O Estado és tu e sou eu
Não é de nenhum barqueiro
De um homem por fazer
Quer-se um homem inteiro
Não um pseudo burguês
Pago à conta de um português
De um homem que caga
E borra o cú como todo o freguês
Queremos a sanidade e o bem
Não te apoderes! Oh tirano!
E dizes que nos fazes leis?
Sem sequer nos inquirires
Tu crias-nos agregados
Nossos corpos já criados
Leis de engaiolados
Já velhos por doença
Sem direitos e maltratados
E nos obriga a comer do pouco dos nossos pais?
E a nossa liberdade, e os direitos na doença?
Direitos a não ter direitos
Direitos à dignidade depois da morte
Santos deputados
Trabalhadores do estado e do privado
A quem servis? A Deus ou ao diabo?
Deputados dos cemitérios
A honra que te seja feita! Há fome!
E desavença nos lares
Abram as gaiolas da liberdade
A que te subjugam
Ó Estado desumano
Indignem-se portugueses
Escarrem nas botas dos deputados
É dia de feira! Políticos da mentira
Portugal como as ervas para toda a terra
País de cidadãos humilhados
Não cedeis a esta tirania, de gente que nos espolia, e nos trata por vilãos.
E falam em democracia?
A sombra da Europa.
Olhai para o chão malfeitores
Manuel Luís Feliciano
São de um fado
Que não tem reis
Só bóis e um arado
E cornos da paciência
Do homem
Que morre à míngua
Do mendigo que dorme na rua
Do homem acidentado
À volta da nora
À volta da nora
Desamparado e entregue a si
A comer de um pai que já não tem
Ao qual o Estado te obriga
Do pouco que te podem dar
Porque o Estado fugiu
Está na puta que o pariu
Não cumpre a santidade
Nem a lei da Constituição
E cede à corrupção
Ó flor da economia!
Somos todos portugueses
O povo come da pia
O mediano fica sem nada
Coitado do inválido
Do homem que adoeceu
Não tem direito morreu
Contra esta máquina que mata
Estado dos nossos impostos
Do diabo do dinheiro
O Estado és tu e sou eu
Não é de nenhum barqueiro
De um homem por fazer
Quer-se um homem inteiro
Não um pseudo burguês
Pago à conta de um português
De um homem que caga
E borra o cú como todo o freguês
Queremos a sanidade e o bem
Não te apoderes! Oh tirano!
E dizes que nos fazes leis?
Sem sequer nos inquirires
Tu crias-nos agregados
Nossos corpos já criados
Leis de engaiolados
Já velhos por doença
Sem direitos e maltratados
E nos obriga a comer do pouco dos nossos pais?
E a nossa liberdade, e os direitos na doença?
Direitos a não ter direitos
Direitos à dignidade depois da morte
Santos deputados
Trabalhadores do estado e do privado
A quem servis? A Deus ou ao diabo?
Deputados dos cemitérios
A honra que te seja feita! Há fome!
E desavença nos lares
Abram as gaiolas da liberdade
A que te subjugam
Ó Estado desumano
Indignem-se portugueses
Escarrem nas botas dos deputados
É dia de feira! Políticos da mentira
Portugal como as ervas para toda a terra
País de cidadãos humilhados
Não cedeis a esta tirania, de gente que nos espolia, e nos trata por vilãos.
E falam em democracia?
A sombra da Europa.
Olhai para o chão malfeitores
Manuel Luís Feliciano
7.02.2019
Portugal
Nasce o sol
Na púbis da montanha
Há erva que cresce
E alegra a terra
No corpo maduro
No suspiro de orvalho
A formiga trabalha
A farinha
E o pão
Que cresta na boca
O gemido do dia
E outras tantas caem
Pelos seios inclinados
À guerra
À tortura
Ao silêncio
À indiferença
Ao medo
Se a formiga não tem pernas
É tirano o beijo
A lei
A ferida
Que esmaga de desejo
A voz dentro das flores
O sol entrecolhido
A luz de não seres nada
No mar que está parado
Portugal não chora!
Manuel Luís Feliciano
Na púbis da montanha
Há erva que cresce
E alegra a terra
No corpo maduro
No suspiro de orvalho
A formiga trabalha
A farinha
E o pão
Que cresta na boca
O gemido do dia
E outras tantas caem
Pelos seios inclinados
À guerra
À tortura
Ao silêncio
À indiferença
Ao medo
Se a formiga não tem pernas
É tirano o beijo
A lei
A ferida
Que esmaga de desejo
A voz dentro das flores
O sol entrecolhido
A luz de não seres nada
No mar que está parado
Portugal não chora!
Manuel Luís Feliciano
É neste silêncio tão de árvore
De cinza
Que os teus braços contra
o meu peito
de nuvem mordida
de chuva
semeiam as primeiras folhas
E o teu fogo entra na raiz
E na saliva que corre
O céu é inteiro
O teu corpo quente
E as aves, que se foram
parem-me a luz
a tua brisa
E as ameixas rosas dos teus lábios
O teu nome
Escorre-me pela garganta
Desagua pela tua
Cintura
vem-me o cheiro
Do teu ventre
E a tua mão a nascer na minha
Os teus cabelos
ainda florescem
E chamam as abelhas
Tenras
Às flores com que te trago
Neste silêncio.
Manuel Feliciano
De cinza
Que os teus braços contra
o meu peito
de nuvem mordida
de chuva
semeiam as primeiras folhas
E o teu fogo entra na raiz
E na saliva que corre
O céu é inteiro
O teu corpo quente
E as aves, que se foram
parem-me a luz
a tua brisa
E as ameixas rosas dos teus lábios
O teu nome
Escorre-me pela garganta
Desagua pela tua
Cintura
vem-me o cheiro
Do teu ventre
E a tua mão a nascer na minha
Os teus cabelos
ainda florescem
E chamam as abelhas
Tenras
Às flores com que te trago
Neste silêncio.
Manuel Feliciano
Árvore
Subi ao cimo de uma árvore esguia
Contei-lhe a angústia que o meu peito sente
Ela cantou comigo enternecida
Não tendo a solidão de toda a gente
Olhando-me no rosto, fez-me querer
Que ela não tem dor nem solidão
E para além do que dói é barco a vencer
A ferrugem do barco no coração
Eu fiquei contente, esqueci o mundo
Senti-me alto no seu enaltecer
Perdi o medo que tenho de viver.
Ao ver-te enraizada lá no fundo
É no céu que almejas o teu viver
Nos ramos consegues o mundo conter.
Manuel Luís Feliciano
Contei-lhe a angústia que o meu peito sente
Ela cantou comigo enternecida
Não tendo a solidão de toda a gente
Olhando-me no rosto, fez-me querer
Que ela não tem dor nem solidão
E para além do que dói é barco a vencer
A ferrugem do barco no coração
Eu fiquei contente, esqueci o mundo
Senti-me alto no seu enaltecer
Perdi o medo que tenho de viver.
Ao ver-te enraizada lá no fundo
É no céu que almejas o teu viver
Nos ramos consegues o mundo conter.
Manuel Luís Feliciano
7.01.2019
Sou grito apenas que se levanta
Não posso ser teu porque sou de ninguém
Sou ave que voa e se encanta
Ao pousar-te és-me o céu mais além
Como um salteador que vai vagueando
No trigo dos teus cabelos se abraça
No tempo em que o teu olhar me enlaça
E os meus lábios com os teus vão chorando
Uma gaivota que grita dentro de mim
Sou como o vento que não consegue parar
Dentro dos teus olhos a naufragar
Voando ao partir longe de ti
És-me o perto das tuas mãos a chamar
Proa de seio pelo amor a marear.
Manuel Luís Feliciano
Não posso ser teu porque sou de ninguém
Sou ave que voa e se encanta
Ao pousar-te és-me o céu mais além
Como um salteador que vai vagueando
No trigo dos teus cabelos se abraça
No tempo em que o teu olhar me enlaça
E os meus lábios com os teus vão chorando
Uma gaivota que grita dentro de mim
Sou como o vento que não consegue parar
Dentro dos teus olhos a naufragar
Voando ao partir longe de ti
És-me o perto das tuas mãos a chamar
Proa de seio pelo amor a marear.
Manuel Luís Feliciano
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