Ninguém nos habita senão nós mesmos.
Manuel Luís Feliciano
É difícil ficar na fronteira do teu muro
Não conseguir entrar por inteiro no teu jardim
Saber que dentro dos teus olhos há um espaço
Que eu só posso percorrer do lado de fora
Saber que tua mão que aquece a minha mão
É uma luz única, inseparável, não se divide
O que te vejo por dentro, é a torrente de um beijo
O que me fazes sonhar, no universo que é só teu
São os teus olhos que levam para dentro de ti
E me deixam do lado de fora admirar o teu
fogo.
Manuel Luís Feliciano
O sol afinal
A luz que não teme
fera do cálculo
O brilho da espada
As mãos acorrentadas
A porta
Escancarada do teu rosto
A silhueta
Do movimento do beijo
A verdade
Do fogo
A afogar-se no mar
A saliva de uma manhã
Sobre uma flor
O que resta
Dos ombros em brasa
A voz que ainda arde
As tuas pálpebras entrecolhidas
A dissolução do escuro
O crepúsculo do bulício dos lábios
da sombra de um barco no mar.
Manuel Luís Feliciano
Vida
Torrente de água
Na cauda de um navio
Floresta que arde
Em espuma
Mil e uma voz
A salvar-se
No azul do mar profundo
Finitude
Flor a quebrar-se
Na proa
Clarão que ilumina
O nosso beijo
Desancorado
O amor todo por nascer
Flor a reerguer-se
Entre outras flores
Infinitude
Floresta de sombras.
Manuel Luís Feliciano
Nao mates o poema
O poema é um corpo inteiro
Um corpo de luz
Igual ao de uma mulher
O poema nao foi feito para o recortares
Nao foi feito para jogos de retorica
Nem cabe ao professor
Ser médico de adjectivos e verbos
Porque quando o recortas
o poema
Deixa de ser poema para ser medicina
O Poema morre
O poema deixa de respirar
O poema Deixa de ser poema
O importante é a vibraÇao da sua luz
E nao os seus ossos.
Manuel Luis Feliciano
Quando tu chegas,
a luz transborda pelo silêncio das pálpebras