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7.21.2010

tú eres mi casa y mi poesia







À Giovanna



Quando a Giovanna passa sobre as ruas de Arequipa
Como o verbo no princípio a naufragar no peito
Onde a terra é abundante e as árvores dão frutos
E o leão e o cordeiro caminham lado a lado
E nas tuas pálpebras em flor
Os meus olhos pousam como duas borboletas
E o meu corpo não sente fome nem sede nem distancia
Porque tu habitas-me como a eternidade de todas as coisas
Sem o predador e a presa angustiados
Porque tu és como o maná sobre a rocha do deserto
A semente que diz palavras de amor sobre a areia
És como um sol suave que não queima
Por mais frio que caia sobre o corpo
Tu dizes sempre a Primavera através das tuas mãos quentes
Morro todos os dias e sou feliz contigo
Porque tu és o lugar onde Deus criou Adão e Eva.



Manuel Feliciano

7.08.2009

Outono

Ecoam-me Outonos
E folhas amarelas
E luas donzelas
Que me ateiam o fogo

E animais de fumo
Cavalgam sem rumo
No ventre da chuva
Esventram-me o céu
De incenso e mirra

E há vozes acesas
Nas rugas das folhas
Que ainda estão verdes
E sabem a frutos

E beijos esquartejados
No chão semeados
Sangrando ternura

E rastos de aves
No céu afogadas
Que seguem o sol
Até ao suicídio

Renascem do nada
Na aguarela das cores
Em morte transmutada
Renovação de tudo.

manuel feliciano

Ao sol

Ao sol


És a jangada amarela
No céu navegando à deriva

Sou o pão quente dos povos
Morrendo em bocas famintas
Vencendo o mar negro da morte
Em portas trancadas nos rostos

Sou a noite quando calo
Sou o dia quando grito
A luz em homens nado – mortos
Nascendo em olhares – diafragmas

Sou o bálsamo em vozes – feridas
Cavalo correndo no prado
Sou homem não algemado
A mãos frias – puras gangrenas

Sou o sol que nunca viste

Sou a luz te desfolhando
Em doces lábios – poemas.


Manuel Feliciano

Biografia

Biografia


Sou
Filho do sol e lua
O tempo é minha cama
Tempo sem lençóis

Sou
Da índole do vento
Esculpindo nos dedos
Fúrias de leões

Sou
Terra indomada
Passos sem pisadas
Ginete de nuvens

Sou
Nervura de água
Alcatrão da estrada
Pedras gemendo sóis

Sou
Mágoa desfeita em chuva
Em feridas agravadas
Por entre vendavais

Sou
Deserto feito prado
Ferro abandonado
Convertido em homem

Sou
Lança dessa guerra
Liquida na terra
Germinando flores

Sou
Inferno que queima
Nessas mãos sem nada
Nessas mãos sem dedos

Sou
Paraíso em chama
Daqueles que só têm
Dedos em migalhas.


Manuel Feliciano

Ao tempo

Ao tempo


Sou horas sem dias
Sou dias sem horas
Ponteiros quebrados
Por entres alquimias

Os dedos da chuva
Suturando feridas
Na derme da terra

Sou feto que nasce
Em forma de sol
No útero da lua

Sou o fogo-fátuo
Para além da morte
Vestindo a noite
Sem mãos corroídas

Não sou fumo de cigarros
Por entre mãos frias

Moinhos que esperam
Através das lágrimas
Devastar o milho
De rostos tão puros

Não sou a estação
De homens que chegam
Carregados de nada
Como peixes atados
Às redes do tempo

Sou tempo sem tempo
Calando a fome
Em bocas – ruínas.



Manuel feliciano

6.03.2009

Fora de nós mesmos

Fora de nós mesmos



Sentemo-nos nos calhaus da tristeza
Sem folhas secas nos olhos
E espigas cortadas nos dedos
Beijemos a ferida como se fosse a rosa
Que os nossos sentimentos pastem
Como cordeiros fora de nós mesmos
Quando nas ruas de Jerusalém o sol desmaie
Olhemos para trás sem o depois
Descabelando nossas mãos ao sol
Sem pontos de interrogação desfigurando
Faces de homens visivelmente alegres
Que um rio de pedra ainda verta água
Nas vértebras do silêncio que nos deram
Que a pedra seja carne correndo na fonte
Que o ópio alimente barcos vergados de carga
E se primaveras morrerem em nossas pálpebras
Pensemos sem dor que somos de algum berço.


Manuel Feliciano

Arequipa

Em Arequipa

O teu sorriso é tão natural
Como o sillar nas casas
Cortamos as rédeas aos condores
Anulamos as grandes edificações
O amor é tão simples como uma cabana


Em Arequipa

O teu coração é a mansão de Deus
O Inverno é tão quente como as tuas mãos
Não trocas um olhar pelos mais doces sabores
O pôr-do-sol é um manjar na mesa dos convivas


Em Arequipa

As palavras são as verdadeiras edificações
Sepultas-me a dor no teu coração
As crianças alimentam-se do luar
Os corpos estão doentes e as mentes estão sãs


Em Arequipa

Há um rio que corre a cada olhar
Uma muralha que cai a cada beijo
Uma obra que se constrói ao dar as mãos
O amor é alma.....


Manuel Feliciano

Poeta Manuel Feliciano

Tempo despernado


A faca não tem gume
A chuva é fio eléctrico
Um pássaro curto-circuito
O voo é subsolo
Cadeiras não têm pernas
Há árvores sem raiz
Folhas sem nervura
Cinzelos sem pontas
Batendo no pão seco
No pão seco das pedras
Tempo de mineiros
Por entre galerias
Na lamina do escuro
Prendem-nos sem cordas
Um cão mija nos fósforos
O Inverno queima
A sede é delinquência
De que somos acusados
À luz da fome
Vislumbramos capoeiras de galinhas
E ao nosso choro
Dizem que comamos a polpa da pedra
Laranjas sem gomos
E o sol sem raios
Que sejamos flores sem cúpulas
Durmamos sem travesseiro!


Manuel Feliciano

5.16.2009

ivanete zanini borghezan


Querida Iva: Quero agradecer a autoria da capa à designer e pintora brasileira Ivanete zanini Bohezan, que prontamente se disponibilizou para me ilustrar a temática do meu trabalho. Pelo seu talento e magia, lhe envio uma saudação cheia de aplausos, pois estará sempre entre os grandes.


Manuel Feliciano

Sinopse

Sinopse




Uma flor ao luar aborda o tema do homem e da sua condição humana. É este homem que nasce cheio de inteligência e poder, que paralisa perante os códigos da natureza, quando a olha e a tenta decifrar.
É nesta ânsia de querer decifrar a natureza, que o poeta constrói e desconstrói alguns dos seus cânones. Afinal o que é que nos difere de todas estas coisas? O sonho supostamente.
É este homem, demasiado preso ao corpo, à terra, e a toda a sua condição humana, que se tenta desdobrar na tentativa de quebrar o ritmo lento da vida e das coisas.
A terra que surge nestes poemas é imóvel. A viagem é uma forma de escape para outros lugares, onde o poeta possa sentir-se terra não imóvel. Há uma negação óbvia dos elementos terrestres, afinal como se todas estas coisas não existissem, sem nunca descurar aqui e acolá, com uma pitada de ironia, as vicissitudes do próprio homem.


Manuel Feliciano

uma flor ao luar-Ivanete zanini borghezan:autoria


Agradeço a autoria da capa do meu livro à minha querida amiga brasileira artista plástica: Ivanete Zanini Bohezan, o meu carinho, a minha estima, pelo seu talento, com que seus dedos doces tocam os meus sonhos.

uma flor ao luar-Dedicado a Glória Dávila


Dedico este livro a Glória Davila Espinoza:

Tu és aquele mel que vem através das folhas de Outono
Inflamar corações ávidos de corredores de luz e árvores firmes
A tua boca alfa e ómega rasgará os grilhões do tempo
Levantar-se-ão os cansados e os oprimidos em dança.
Poema em homenagem a Glória Davila Espinoza, in memoria: KANTOS DE ISHPINGO



8.12.2008

À Giovanna

Quando a Giovanna passa sobre as ruas de Arequipa
Como o verbo no princípio a naufragar no peito
Onde a terra é abundante e as árvores dão frutos
E o leão e o cordeiro caminham lado a lado
E nas tuas pálpebras em flor
Os meus olhos pousam como duas borboletas
E o meu corpo não sente fome nem sede nem distancia
Porque tu habitas-me como a eternidade de todas as coisas
Sem o predador e a presa angustiados
Porque tu és como o maná sobre a rocha do deserto
A semente que diz palavras de amor sobre a areia
És como um sol suave que não queima
Por mais frio que caia sobre o corpo
Tu dizes sempre a Primavera através das tuas mãos quentes
Morro todos os dias e sou feliz contigo
Porque tu és o lugar onde Deus criou Adão e Eva.



Manuel Feliciano

4.06.2008

Morde-me o chão

Morde-me o chão de corpos calcinados
De punhos que sangram na garganta
Das pedras em sono
Sinto a estação de todos os homens
Na viagem do tempo
E pinto a pulsação
Das horas nos lábios vermelhos
Do pó onde escuto as vozes em silêncio
É preciso que as pedras pairem
E as crianças nasçam
Doem-me as árvores, as flores, os muros
Os beijos!
Porque sou ponte feita de silêncio em chama
A refazer os corpos
Que moram neste chão, nestas árvores!


Manuel Feliciano