10.27.2010

Ser rio

Nos trémulos lençóis maduros da cama
O rio desceu corado pelos teus cabelos
Dançou com os seios lambendo as rochas
Tomou-as de frente no colo uma a uma
E arderam na carne serena da orquídea
Comeu a sofreguidão e o medo da vida
Em cachos de sorrisos salpicados de uvas
Cantou a canção nas asas de uma garça
Por entre dores do sol nas mãos paridas
Abandonou-se nos fios de uma guitarra
E abraçou multidões nas margens de terra
E os olhos ardiam-me em estrelas cadentes
E o meu coração na tua doce boca chorava
Em doces jardins verdes de saliva e pássaros
E dentes dedilhando-me em anjos nas alturas
Em luas por cima do céu em ruínas com flores
No candelabro do mel dos teus olhos astrais
Sou-te barco na armadilha das faces límpidas
Enredado em fios sussurrantes de cardumes
Morro na folhagem dos teus ombros ancestrais
E perco-me na linguagem fresca de quem sou
O sonho quente no sangue crente de alguém
Antes que mar se me acenda por todo o corpo
Em torrões de açúcar de línguas de espuma
E renasça em girassóis dentro da tua placenta
E me leve fragmentado ao teu altar do mundo!



manuel feliciano

1 comentário:

  1. Que as metáforas precioso e belo poema. Eu amo isso. Um beijo

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